Jornada debate vida e obra de Alceu Amoroso Lima
Início: ⋅ Países: Brasil
Jornada debate vida e obra de Alceu Amoroso Lima
Em viagens pelo Brasil e pelo mundo, o escritor conheceu o filósofo francês Henri Berger, visitou uma cidade francesa medieval e encontrou inspiração em histórias do povo brasileiro
O evento acontece nesta sexta-feira (11/12), às 19h, no canal do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAAL) no Youtube. O link poderá ser acessado também pelo site http://alceuamorosolima.com.br/ no dia do seminário.
Em tempos de pandemia e isolamento social, o acervo do jornalista Alceu Amoroso Lima convida os brasileiros a embarcarem numa viagem pela obra e pela vida do intelectual. A “Jornada Tristão de Athayde – Seminário Alceu Amoroso Lima”, cuja quinta edição acontece em formato digital por causa das restrições impostas pela pandemia de Coronavírus, terá como tema os muitos deslocamentos que o escritor realizou pelo Brasil e pelo mundo, retratados e refletidos em suas obras. O percurso simbólico será guiado por pesquisadores que vem se dedicando a investigar preciosidades entre os mais de 50 livros publicados pelo autor e no arquivo de cerca de 32 mil documentos do líder católico. O acervo está guardado em sua antiga residência em Petrópolis, transformada em Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAAL). Durante o encontro, duas cartas inéditas, trocadas com o então Frei Lucas Moreira Neves, serão reveladas.
O seminário virtual, marcado para o próximo dia 11/12, às 19:00, reunirá os pesquisadores Alessandro Garcia, Leandro Garcia e Guilherme Arduini, além de Xikito Ferreira, neto Tristão de Athayde, pseudônimo usado pelo escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras. Com duração de 2 horas, o encontro on line acontecerá no Youtube. Xikito Ferreira, o organizador da apresentação, explica que a ideia de trazer a temática da viagem para o centro do debate nasceu de uma conversa do grupo de pesquisadores. Diante do cenário da pandemia, as histórias de Tristão de Athayde prometem ser mais uma janela para escapar do isolamento social.
E quem decidir embarcar nesta jornada vai ouvir muitas histórias interessantes. O pesquisador Leandro Garcia, por exemplo, conduzirá o público por uma cidade medieval, a partir das lembranças de um passeio que o católico Alceu Amoroso Lima fez para conhecer de perto a biblioteca do convento da Ordem Dominicana, no Sul da França, nos anos 1950. Encantado pelas histórias da Basílica de Santa Maria Madalena, ele decidiu aproveitar uma viagem de trabalho a Paris para esticar o percurso até a pequena cidade de Saint Maximin, no interior da França. A ideia era ver de perto a igreja e o antigo centro de estudos e pesquisa dos dominicanos franceses. Na volta, o advogado contou a experiência num livro de memórias e em artigos publicados na imprensa carioca, mas os detalhes sobre a logística da viagem só foram descobertos recentemente, quando o professor, investigando o acervo da casa de Petrópolis, encontrou duas cartas inéditas trocadas entre Alceu Amoroso Lima e o então seminarista Lucas Moreira Neves, que havia acabado de ingressar na ordem dominicana. Durante o evento, fragmentos de cópias das missivas serão apresentadas.
“Ele havia ido a Paris participar de um encontro da Unesco e o Frei Lucas foi responsável toda a logística da ida até o sul da França, intermediando a viagem junto à embaixada de Paris. Neste cartas, inéditas, há detalhes de como, por exemplo, Alceu pegou um trem em Paris e foi para região. Como Dom Lucas depois se tornou uma figura importante do pensamento católico brasileiro, tendo vivido 20 anos no Vaticano e sido cotado para ser Papa, eu destacarei este documento pela importância histórica”, diz, acrescentando que o objetivo da palestra será analisar a passagem de Alceu pela cidade e pelo convento.
Será possível descobrir, ainda, que muito mais do que usufruir do prazer do turismo, ele transformava as jornadas em aprendizado e inspiração para artigos e livros. De São Lourenço a Paris, Tristão de Athayde mantinha um olhar aberto a apreender tanto os costumes mais simples da gente do interior, quanto os ensinamentos da vida acadêmica. Esta faceta que unia o homem simples ao cosmopolita, será ressaltada na fala do sociólogo e professor Alessandro Garcia da Silva, que contará detalhes sobre a terceira ida do autor à Europa, onde estudou com o filósofo Henri Bergson, em Paris, na década de 1910, durante um curso de filosofia. Garcia também destacará as jornadas do carioca por Minas Gerais e sua capacidade de traduzir a alma da gente do interior. Dois livros servirão de base para o passeio pelas memórias de Alceu: Companheiros de Viagem (1971) e Manhãs de São Lourenço (1950). “Alceu Amoroso Lima foi um viajante. Ele viajou muito. Pelo Brasil e pelo mundo. Conheceu a Europa, passou manhãs em São Lourenço, viveu nos Estados Unidos. Mas, apesar de ser um viajante, Alceu não foi um turista. Sua relação com o viajar era pré-moderna. Influenciado por sua visão religiosa de mundo, Amoroso Lima foi um peregrino. Seu olhar era o de quem buscava o conhecer e não apenas o passear”, resume.
Também com base em trechos do livro “Companheiros de Viagem”, o historiador e sociólogo Guilherme Arduini proporá uma reflexão sobre as relações pessoais e profissionais do autor, baseando-se nos perfis que ele publicou sobre artistas modernistas, do educador Anísio Teixeira, e do católico francês Robert Garric. “O livro é uma espécie de "jogo de espelhos" a definir a imagem de seu autor a partir do que ele escreve a respeito das outras pessoas. Nos perfis que ele publica no livro, ele mostrar, por exemplo, um outro lado dos artistas modernistas, um lado humano, de incertezas e hesitações”, diz Arduini.
Ao neto Xikito, caberá a missão de transportar o público para um episódio que marcou a vida de seu avô. Às vésperas da chegada dos nazistas à França, Alceu se encontrava em Paris, de férias com os pais e irmãos. Tiveram que voltar para o Brasil às pressas, pegando um trem para Lisboa e, depois, embarcando para casa. “Ele retornou a Paris 36 anos depois, em 1950, com a mulher e as filhas. Esta experiência o marcou muito. Na minha fala, inspirada no livro “Europa de Hoje”, eu contarei esta experiência e sobre as reflexões que ele fez sobre a obra de Joaquim Nabuco e Afonso Arinos. Nabuco no papel de importar ideias de liberdade da Inglaterra para o Brasil e Afonso Arinos, fazendo percurso contrário, exportando a cultura brasileira para a Europa”, conta.
Quem foi Alceu Amoroso Lima
Advogado, diplomata e professor de literatura, Alceu Amoroso Lima foi um dos intelectuais mais ativos de seu tempo. Iniciou uma carreira de jornalista em 1919, com uma colaboração em O Jornal como crítico literário, período em que passou a utilizar o pseudônimo de Tristão de Athayde. Publicou dezenas de livros e em 1935 foi eleito para ser o quarto ocupante da cadeira 40 da Academia Brasileira de Letras. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1893. Filho de Manuel José Amoroso Lima e de Camila da Silva Amoroso Lima, faleceu em Petrópolis, no dia 14 de agosto de 1983. Era um dos mais respeitados defensores da Igreja Católica no Brasil. Foi diretor do Centro Dom Vital, onde criou o Instituto Católico de Estudos Superiores, o embrião da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que Alceu ajudou a fundar. O Centro Dom Vital reunia os líderes do catolicismo no Rio de Janeiro. Além de Diretor de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos (1951).
A série de encontros faz parte de um movimento de estudo e pesquisa sobre a obra de Amoroso Lima e tem origem em uma promessa. Pouco antes de morrer, em 2011, a filha mais nova de Amoroso Lima, Lia, fez um pedido ao sobrinho Xikito: que não deixasse a obra de seu pai cair no esquecimento. Chamada de Madre Teresa, ela viveu reclusa por 60 anos no mosteiro dos beneditinos em São Paulo. Ao longo das três primeiras décadas, recebeu cartas diárias do pai. Ciente da importância da obra do intelectual, ela não queria que as gerações futuras esquecessem o trabalho do homem que combateu a ditadura militar, se tornou imortal da Academia Brasileira de Letras e dedicou sua escrita ao Brasil.
O objetivo do evento é manter vivo este legado, incentivando o diálogo entre os estudiosos. A obra do escritor está preservada em Petrópolis, na antiga casa de Alceu, e pode ser pesquisada pelo site (http://alceuamorosolima.com.br/). Há mais de 32 mil cartas, 75 mil livros e 2,5 mil fotos que relatam parte da história do intelectual.
Programação
O seminário virtual acontecerá no próximo dia 11/12, às 19:00, no canal do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAAL) no Youtube.
Palestra 1: Europa, 1950, 36 anos depois, por Xikito Ferreira
Palestra 2: A vida é uma "lição de coisas", por Guilherme Arduini
Palestra 3: Alceu e os dominicanos: uma viagem a Saint Maximin, por Leandro Garcia
Palestra 4: Pessoas, lugares e memórias: tempo e viagem em Alceu Amoroso Lima , por Alessandro Garcia


