Domingo, 27 de Setembro de 2020
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Tradução, formação e confinamento | Chamadas da revista Belas Infiéis

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: Brasil

Chamada para artigos, Letras, Literatura, Tradução

A revista Belas Infiéis (ISSN Eletrônico 2316-6614, Qualis A3), editada pelo curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução POSTRAD, do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET), da Universidade de Brasília (UnB), recebe artigos para seus próximos números. A revista aceita artigos em português, inglês, francês e espanhol, além de italiano e alemão (sob consulta). Os próximos temas são:

  •  Traduzir em tempos de peste e confinamento (Prazo máximo para o envio: 10 de agosto de 2020)
  • A formação de tradutoras e tradutores no ensino superior (Prazo máximo para o envio: 22 de agosto de 2020)

 Traduzir em tempos de peste e confinamento (Prazo máximo de envio: 10 de agosto de 2020)

Vários modos de viver surgiram nesses tempos flagelados pela covid-19, tempos de ficar em casa para alguns e tempos de arriscar a vida lá fora para outros. Modos de viver que vêm acompanhados de novos usos de palavras que passam a fazer parte de nossa vivência quotidiana: isolamento, quarentena, (des)confinamento, máscara, anosmia, respiradores, entre outras, e que já são objeto de estudos de terminólogos. Parece que a vida começou a ser pautada por aqueles que decidem se devemos ou não sair de casa: os cientistas, as autoridades públicas, mas também o coronavírus. Pois é, há um vírus aí decidindo nossos destinos.

A tradução em tempos de peste adquire vários sentidos: tradução de sentimentos, tradução do si mesmo no processo de adaptação ao chamado “novo normal” (eis mais uma expressão inusitada!), se é que jamais existiu um normal antes; tradução interlínguas para informar sobre as formas de prevenção à propagação do vírus, entre outros modos de transitar por culturas e línguas.

Numa grande página coletiva de nossa História, nações contribuem cada uma com seu traço para redesenhar as clássicas perguntas “o que somos?”, “para onde vamos?”, “de onde viemos?”; sobretudo, “para onde vamos?” e  “o que estamos sentindo agora?” são, salvo engano, as questões que mais se repetem nas regiões atingidas pelo flagelo: Itália, França, Espanha, Reino Unido Estados Unidos, Rússia, Brasil, Índia, Singapura, Japão, Coréia do Sul etc.. Todos esses países, depois da China, fazem e refazem as mesmas questões. E, nós, no Brasil, nos tornamos em poucas semanas o epicentro do coronavírus, ao mesmo tempo em que ouvimos os ecos dos cascos do cavalo do fascismo galopando por Brasília: como traduzir esse sentimento tão aterrorizante de não sabermos de que o amanhã será feito? Traduzir é hoje uma questão de vida ou morte – literalmente.

No romance La peste, do escritor francês Albert Camus, o narrador Rieux descreve no epílogo o júbilo de Orã ao vencer a doença, e confessa o ímpeto de testemunhar em favor das vítimas – transcrevemos um excerto aqui na tradução de Graciliano Ramos:

"[....] enquanto girândolas multicores subiam numerosas no céu, o Doutor Rieux decidiu redigir a narrativa que agora termina, para não ser dos que se calam, para testemunhar a favor das vítimas, deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência sofridas por elas e dizer apenas o que aprendeu no flagelo: as criaturas merecem mais admiração que desprezo. " (CAMUS, 1950, p. 281)

Nesse romance, emblemático para o nosso tempo, escrito em meio à Segunda Guerra Mundial e publicado no pós-guerra em 1947, vemos o desfilar da escalada de pânico e morte tomar conta de uma pequena cidade costeira da Argélia. Pelo sabor das palavras do alagoano Graciliano Ramos, o romance chega ao Brasil em 1950; depois ganharia nova tradução de Valérie Rumjanek em 1988, pela Record.

Assim como La peste, outros grandes textos que falam de confinamento, quarentena, e de flagelos de todos os tipos, ficcionais e reais, chegaram até nós por meio da tradução. Recriados em solo pátrio onde a lenda de eterno paraíso perdura cinco séculos depois da invasão portuguesa no Brasil, O Decameron, de Boccaccio, A quarentena, de Le Clézio, O amor nos tempos do cólera, de García Márquez,  entre tantos outros poemas, relatos de viagens, textos bíblicos, obras de arte, aportaram aqui e foram consignados e absorvidos em língua portuguesa do Brasil por meio da tradução – para nos prevenir, para nos (re)avivar a memória ancestral do medo da morte e da luta pela sobrevivência. A tradução sempre ocupou esse espaço da sobrevivência das culturas e de sua permanência ao longo dos séculos, de suas ressurgências após a terra arrasada. Os relatos de guerra, de viagens, de cientistas, de navegadores, de escritores e poetas povoam nosso inconsciente coletivo e fazem o leito onde dormem e despertam nossos sonhos.

Hoje, em meio às dores do luto das mais de 40 mil mortes no país, temos também, como doutor Rieux, que testemunhar as nossas vivências da covid-19, contar nossas histórias e denunciar os avanços do vírus nos territórios indígenas, avanços que marcam as histórias já arrasadas dos povos originários do país chamado Brasil. Como fazer para que esta página dolorida de nossa história chegue até outros países? Como os intérpretes têm trabalhado para disseminar essa realidade mundo afora? Como jornalistas, coletivos de tradutore(a)s, tradutores juramentados, intérpretes judiciários, trabalham nas redações de jornal, nas ruas infestadas, nas delegacias, aeroportos, nas reuniões ministeriais, nos gabinetes de crise mundo afora? Vemos nas televisões imagens do mundo inteiro em que as autoridades governamentais, jornalistas e cientistas dividem o espaço com intérpretes de línguas de sinais. De modo definitivo, a língua de sinais se impôs como a tradução necessária para a inclusão dos surdos no mundo inteiro. Como os intérpretes de línguas de sinais lidam com a questão ética ao traduzirem ou assistirem às traduções de pronunciamentos antidemocráticos e violentos de líderes mundiais autoritários.

Nestes tempos de peste, estudantes de todas as idades e professores se veem por meio das tecnologias da comunicação e do ensino. Bem ou mal, às vezes mais mal do que bem, as múltiplas faces da escola procuram se irmanar na dificuldade do aprendizado por intermédio das ferramentas de educação à distância. A tradução cresceu em ambientes insalubres, como as guerras, e se adaptou maravilhosamente às tecnologias. O trabalho do tradutor se beneficiou do avanço da informática, da inteligência artificial, do advento das redes de comunicação como a internet, e se expandiu de forma inusitada. Em vez de perecer sob a globalização, a tradução, assim como o livro em formato digital, teve um aumento de produção imenso – quanto mais culturas entraram em contato pela primeira vez por meio das redes de computadores e pelas grandes mídias digitais, mais tradutores e intérpretes foram acionados, mais dicionários bi e multilíngues foram feitos, mais bancos terminológicos surgiram, mais livros e poemas foram traduzidos, mais trabalhos científicos foram lidos e escritos em muitas línguas.

A revista Belas Infiéis, periódico científico do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da Universidade de Brasília, convida intérpretes, tradutores, pesquisadores, professores e estudiosos da tradução, para refletir sobre estes tempos de peste e confinamento, enviando-nos colaborações sobre os seguintes temas:

  •     Traduzindo o Brasil para o mundo: o que jornais, revistas, tevês, mídias, cientistas mostram e falam sobre o Brasil nestes tempos de flagelo?
  •     Autoritarismo, censura e tradução no século XXI;
  •     Literatura dos confins, confinamento e povos originários – a tradução sem fronteiras como sobrevida dos povos e de suas culturas;
  •     Os intérpretes de línguas de sinais mundo afora e no Brasil: qual o seu papel diante da catástrofe iminente? Como se proteger do flagelo e levar esperanças para quem está confinado? Como superar as dificuldades de trabalhar junto a autoridades fascistas?
  •     Tradução e gênero – traduzir as vozes de mulheres vítimas do confinamento; traduzir escritoras em meio à pandemia; traduzir e interpretar mulheres líderes, profissionais de saúde, cientistas, entre outras, cujas vidas foram e estão sendo altamente afetadas pelo seu trabalho.

Seguindo as normas editoriais da revista, também enfatizamos, para este número, a chamada para o envio de traduções inéditas de textos literários e de textos relevantes sobre o tema da pandemia. Em suma, a revista Belas Infiéis se pergunta: como traduzir a vida em meio à morte? Como traduzir em esperança o desespero das vítimas da covid-19 que morrem em silêncio? Como traduzir o sofrimento de quem espera nas filas e ruas do Brasil por um auxílio que tarda em chegar? Como pensar a tradução, o tradutor e seu papel no mundo de hoje e no pós- pandemia? O que esperar?


A formação de tradutoras e tradutores no ensino superior (Prazo máximo para o envio 22 de agosto de 2020)

A formação de tradutores(as) em meio acadêmico data do final do século XIX na Argentina, China e Alemanha. Porém, somente em meados do século XX é que a criação de cursos superiores em Tradução começou a tomar fôlego no continente americano e europeu. No Brasil, a formação de tradutores(as) em Instituições de Ensino Superior (IES) começou a ser trilhada no final da década de 1960 graças à publicação da Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968 (Lei de Diretrizes e Bases). 50 anos após a publicação dessa lei, mesmo a profissão de tradutor(a) sendo reconhecida, mas não regulamentada, temos no território brasileiro diversos programas de graduação voltados à formação de tradutores(as), em sua maioria de línguas orais.  

O interesse em pesquisar sobre a formação de tradutores(as) tem se mostrado cada vez mais promissor tanto no Brasil quanto no exterior, tendo em vista que o número de artigos, de eventos, de dissertações e de teses que abordam o tema tem crescido cada vez mais. Entre eventos recentes que têm este tema como principal foco de discussão, podemos destacar os seguintes: International Conference on Teaching Translation and Interpreting (TTI), promovido pela Universidade de Łódź, Polônia, Consortium for Translation Education Research (CTER), promovido pela Universidade Jaguelônica e pela Universidade Pedagógica de Cracóvia, Polônia, Congrés internacional sobre investigació en Didàctica de la traducció (didTRAD), promovido pelo grupo PACTE da Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha, e o Seminário de Pedagogia e Didática da Tradução (SEDITRAD), promovido pela Universidade de Brasília. Cursos de curta duração voltados para a formação de formadores em Tradução também têm se tornado cada vez mais comuns, como por exemplo: Training in Translation Pedagogy Program (TTPP) promovido pela Universidade de Ottawa, Canadá, e a escola de verão Training the Teacher of Literary Translation, promovida pela European School of Literary Translation (ESLT).

Com vistas a colaborar para a consolidação desse campo, convidamos pesquisadores(as) a apresentarem contribuições em formato de artigos, artigos traduzidos, resenhas de obras que versem sobre o tema, resenhas de traduções e entrevistas sobre os seguintes aspectos relacionados à formação de tradutores(as) de línguas orais e de sinais no Brasil no exterior:

  •     Formação de tradutores(as) e de pesquisadores(as) em Tradução;
  •     A avaliação na formação de tradutores(as) (avaliação de tradução, avaliação de tradutores(as) em formação, avaliação de tradutores(as) profissionais, avaliação de concepções curriculares e cursos);
  •     A formação acadêmica de tradutores(as) frente às realidades do mercado de trabalho;
  •     A formação contínua de formadores(as) de tradutores(as);
  •     Abordagens interdisciplinares na formação de tradutores(as);
  •     Aplicação das teorias educacionais à formação de tradutores(as);
  •     Competência tradutória;
  •     Competências do(a) formador(a) de tradutores(as);
  •     Competências do(a) tradutor(a);
  •     Concepções curriculares de cursos em Tradução (graduação, pós-graduação, formação continuada);
  •     Elaboração de material didático com vistas à formação de tradutores(as);
  •     História da formação de tradutores(as);
  •     Metodologias inovadoras no ensino de Tradução;
  •     O ensino a distância na formação de tradutores(as);
  •     O ensino de línguas (materna e/ou estrangeira) na formação de tradutores(as);
  •     O uso de tecnologias na formação de tradutores(as).

Organização:

  • Prof. Dr. José Luiz Vila Real Gonçalves (UFOP)
  • Dra. Patrícia Rodrigues Costa (Pós-doutoranda POSTRAD/UnB)

Mais informações na página da Revista Belas Infiéis.

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