Sábado, 27 de Novembro de 2021
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Chamada para artigos Lusotopie: Patrimônios difíceis e políticas públicas de memória

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: França

Chamada para artigos, Ciências Humanas e Sociais, Estudos Lusófonos, Memória , Património

A revista Lusotopie está com chamada aberta para o dossier Patrimônios difíceis e políticas públicas de memória: descolonialidades, redemocratizações e democracias em risco. O prazo para apresentação de propostas (em francês, inglês ou português) decorre até ao dia 20 de setembro de 2021.

Editoras:

  • Maria Leticia Mazzucchi Ferreira, Universidade Federal de Pelotas, Brasil
  • Paula Godinho, Universidade Nova de Lisboa, Portugal

A proposta do dossier visa interrogar a relação entre o proliferar dos estudos sobre a memória e os processos de patrimonialização e desconstrução de patrimônios, concatenando-os com um tempo em que a topolatria se tornou central, com um crescendo dos lugares de memória, enquanto se dissipam os meios de memória (Nora 1986), e em que tudo se torna património (Chevalier 2000), num formato de inflação (Heinich 2009). Há numa nova relação entre passado, presente e futuro, sobretudo a partir do final dos anos 1980, evidenciada no crescendo de uma febre da história, como uma profecia patrimonial (Bensa 2001), que se desdobra do nacional ao local (Fabre 2001). Por que razão é tão recente este primado da memória na ordem do tempo, em que o presente, no momento em que ocorre, já irrompe como histórico (Hartog 2003:127), enquadrado numa historização imediata (Hartog 2003:207)? Quantas vezes somos convidadas a segurar o passado no seu lugar, a encontrar um passado utilizável, (Iordachi &Trencsènyi 2003), conferindo-lhe a beleza do morto(de Certeau, Julia & Revel 1990), sem servir para mobilizar o porvir? Converter o passado em emblema e em património, nesse país estrangeiroque é o tempo pretérito (Lowenthal 1983), é remeter para a amnésia momentos épicos, empolgantes, de luta e vitória subalterna, em memórias exauridas perante um presente contínuo, que nos faz sentir ora impotentes, ora nostálgicas (Angé & Berliner 2016). Segundo Henry Rousso, a obsessão do passado é uma resposta substitutiva às urgências do presente ou, mesmo, uma recusa do futuro (Rousso 1994:280).

A emergência pública da memória – os passados presentes– concatena-se com um tempo que poderíamos designar de futuro ausente– ou aquilo a que Andreas Huyssen chama “futuros passados”, sem a possibilidade de futuros inéditos.Depois de uma quase descontinuidade da produção acerca da memória, após os textos fundacionais de Maurice Halbwachs (1925; 1950), reaparece nos anos 1980 um interesse pelo passado, pela invenção de tradições (Hobsbawm & Ranger 1983), pelos lugares de memória (Nora 1986), por uma semântica dos tempos históricos, que sobrepõe um presente contínuo à construção do futuro. Segundo Reinhart Koselleck, quando sucede uma crise no «horizonte de expectativas», que se baseia em futuros delineados com otimismo, há um recentramento no “espaço da experiência”, alicerçado no passado. Por outro lado, o enfoque no passado parece impedir a interrogação dos futuros presentes (Koselleck 1979). François Hartog forjou a noção de presentismo para descrever uma situação em que a actualidade se tornou o horizonte, sem futuro e sem passado (Hartog 2003). O presentismoinstalou-se (Rousso 2012), relacionando-se com um alegado fim da História(Fukuyama 1992), num passado que não passa(Rousso & Conan 1994), a que se interroga o modo de usar, com memórias fracasou fortes(Traverso 2005), por vezes com perspetivas emaranhadas (Traverso 2015). O anjo da história, a que se referira Walter Benjamin deu uma volta de 180 graus, segundo Zygmunt Bauman,num tempo em que parece difícil encontrar a felicidade no futuro, e o passado idealizado aparenta constituir um ilusório porto seguro, em retrotopia (Bauman 2017:8).

Pretende-se apresentar reflexões em torno das transformações da relação do passado com o futuro, através de experiências de patrimonialização e exibição do passado (sítios, museus, comemorações) que se reportem às práticas de dominação e de violência política nos processos coloniais ou em regimes ditatoriais, conferindo ênfase à instituição desses patrimônios, como se inserem em lógicas pós-coloniais, em processos de transição para a democracia, ou em contextos de democracia em risco, como no Brasil atual.Considera-se aqui o conceito de patrimonialização proposto por Davallon (2012) como um estágio intermediário entre a memória como campo de significações, e o patrimônio, como operação performativa, complexa, possível de “afrontar o passado, deformando-o”(Rautemberg 2003), bem como se tornar um espaço de emancipação ou de reafirmação de fronteiras identitárias, juntando-se-lhe igualmente a dimensão do anti-património (Alonso 2020).

Por outro lado, observa-se na contemporaneidade, formas de representações e ações de gestão do passado que se assemelham (Rousso 2014). A transnacionalização da memória se expressa, no nível do discurso, pela recorrência de diferentes formas de linguagem (oral, visual) que passaram a compor nosso repertório memorial e com as quais transcrevemos e representamos passados difíceis. Nesse sentido, os aparelhos culturais, como os museus, são cada vez mais desafiados a interrogar e desconstruir os discursos hegemônicos e estáveis,   cumprem um papel fundamental de apresentar representações possíveis do passado traumático (Williams 2007), se apresentam como dispositivos catárticos e de reapropriação coletiva (Mesnard 2018; Ferreira & Michelon 2015) ou como formas de memorialização destinadas a reparação simbólica às vítimas de violência (Moore 2009). 

Nesse mesmo sentido, os monumentos e outras inscrições memoriais dispostos no espaço público e que remetem a passados traumáticos, tornam-se cada vez mais objeto de questionamentos e conflitos em torno da validade de suas existências, tal como se observou, mais recentemente nos movimentos de derrubadas de estátuas de Cristóvão Colombo, como o que ocorreu na cidade americana de Boston, ou de confederados como a de Jefferson Davis e, Richmond, ou ainda a do traficante de escravos Edward Colston na cidade inglesa de Bristol, ou à do padre Antonio Vieira em Lisboa, no âmbito de um mais vasto movimento iconoclasta, na sequência do assassinato de George Floyd (Traverso 2020).  No Brasil acentuam-se os questionamentos sobre a validade de permanência de inúmeros monumentos associados ao passado escravocrata, e ao extermínio de nações indígenas. Um dos mais emblemáticos desses exemplos é o Monumento às Bandeiras localizado na cidade de São Paulo, obra comemorativa ao centenário da independência do Brasil em 1922, realizada pelo artista modernista Victor Brecheret e inaugurado em 1953. Trata-se de escultura feita com blocos de granito representando, alegoricamente, a figura do bandeirante, personagem que fez parte das missões enviadas pela Coroa portuguesa para explorar o interior do Brasil, denotados no século XIX como símbolos do empreendorismo paulista (Cymbalista 2020). Em tempos recentes, o monumento vem sendo questionado, em um contexto de lutas sociais contra discriminações e justiça social, pelo passado sombrio que representam os bandeirantes como dizimadores da população indígena. Na África de expressão portuguesa, as memórias em torno da guerra colonial e de libertação também têm assumido contornos variados, desde a sua assunção pelas jovens gerações, até aos modos anti-anticoloniais delineados a partir dos centros e de cima, como se demonstra na obra organizada por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins (2018), que convocou investigadores de proveniências diversas.

Longe da ideia de invisibilidade e impermeabilização ao olhar defendida por Musil (1965), ou mesmo de suas funções como elementos da narrativa de fundação da Nação, os monumentos se convertem em espaços discursivos de contestação e disputas, ora como referencias memoriais que demarcam o espaço urbano, ora como símbolos de processos de dominação e violências que marcaram as sociedades pós-coloniais, e frente aos quais dois conceitos operacionais são confrontados: a preservação e a destruição. 

Na perspectiva da preservação parece ter força a ideia de fazer destes monumentos peças chaves de uma pedagogia da memória, “heranças que ferem” como afirmam Uzzel e Ballartyne (2007) mas que necessitam existir para que se possam refletir a partir delas. Na perspectiva oposta, colocar abaixo os monumentos pode denotar o ato simbólico de contestação dos efeitos do passado no presente, o dar a voz àqueles que sempre estiveram alijados da narrativa histórica. Entre a memória e o “memoricidio” (Sulfaro 2014), inúmeras reflexões podem ser propostas para pensar o lugar dos monumentos nas sociedades contemporâneas.

Por outro lado, pretende-se interrogar as memórias que não se tornam património, impossíveis de serem unescoizadas.Que dificuldades surgem na criação de lugares de memória de situações conflituais e traumáticas? Como se recorda o trauma e o acontecimento? Que relação estabelece o presentismo, como denegação do devir, com os usos da memória? Tomando-se como referencia os temas levantados na Conferência Internacional do ICOM (International Council of Museums) sobre “questões dolorosas”, realizada em Helsingborg, na Suécia em setembro de 2017, busca-se nesse dossiê discutir processos patrimoniais associados à escravidão (à exemplo do Cais do Valongo na cidade do Rio de Janeiro), ao colonialismo português (Pereira 2020), à colonialidade e descolonialidade (Quijano 2005; Mignolo 2016) aos contextos de violência política, como os regimes ditatoriais em Portugal, Brasil e nas ex-colônias, bem como interrogar a sua relação com as políticas públicas de memória e as construções anti-anticoloniais (Cardina & Rodrigues 2020), que ora emblematizam, ora subsumem perspectivas emancipadoras e construtoras do porvir (Louçã 2021; Godinho 2021; Godinho, Samara & Simões 2020; Valencia & Contreras Román 2018;  Godinho 2017; Appadurai 2013; Bartra 2016).

As propostas de artigos (500 palavras) deverão ser enviadas até 20 de Setembro de 2021 para os seguintes endereços: leticiamazzucchi@gmail.comp.godinho@fcsh.unl.ptlusotopie@gmail.com  Se o resumo for selecionado, os artigos completos são esperados para o 20 de Novembro de 2021. A revista aceita artigos em três línguas: francês, português e inglês.

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