Terça-feira, 09 de Março de 2021
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CFP #3 Translocal - Cinema(s) Periférico(s)

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: Portugal

Chamada para artigos, Ciências Humanas, Cinema, Estudos Culturais

Translocal. Culturas contemporâneas locais e urbanas

Convite à publicação

n.º 3 (2020) Cinema(s) Periférico(s)

Coordenadora convidada - Maria do Carmo Piçarra (ICNova-FSCH e UAL)

Coordenadora residente - Ana Salgueiro (UMa-CIERL, CECC-UCP e CEHA/DRABM)

Data limite de submissão de trabalhos - 15 de Fevereiro de 2021

 

Fenómeno cultural gerado no contexto de uma modernidade urbana, cosmopolita e escopofílica, em que a invenção de novos aparelhos e técnicas de registo e de projeção de imagens se cruzava ora com o experimentalismo estético e criativo, ora com o interesse jornalístico, científico e artístico na documentação da realidade, o cinema assumiu um protagonismo axial naquilo que Michel de Certeau (1990) designou como a invenção do quotidiano. Determinante para a cristalização desse regime visual simultaneamente eufórico e fóbico, transgressivo e esclarecedor, como a ele se referiu Isabel Capeloa Gil (2007), o cinema contribuiu decisivamente para a reconfiguração das sociedades contemporâneas, para a definição das suas fronteiras e para a hierarquização dos seus sistemas ecossocioculturais, ao potenciar a circulação, a transferência e a reimaginação dos valores e dinâmicas sociais, culturais, políticas e económicas que organizaram o tecido urbano a partir do final do século XIX.

Este relevo não invalidou, porém, que o cinema ocupasse também uma certa periferalidade nos sistemas culturais, artísticos e científicos. Tal sucedeu tanto pelo seu carácter impuro e, por vezes, massificado(r), frequentemente oscilante entre a comercialização do entretenimento e da informação, e a propaganda ideológica; como pelo seu discurso híbrido e pelo gesto radical da vanguarda cinematográfica, verificado tanto ao nível da experimentação criativa na conceção da linguagem fílmica, quanto ao nível das imagens de mundo selecionadas e disseminadas, ousando dar voz a uma pluralidade de narrativas oculta(da)s nas representações dominantes dessas e nessas sociedades, ou tornando visíveis formas alternativas de as pensar, de nelas agir e de as reconstruir de forma menos hegemónica.

Produto e produtor do mundo urbano contemporâneo, nessa oscilação entre fenómeno cultural de massas e fenómeno cultural periférico ou de vanguarda, o cinema integrou na sua própria classificação taxonómica essa dualidade tipológica, na verdade bem mais volúvel e complexa do que a dicotomia pode sugerir.

Cinema periférico é uma das designações usadas para referir a produção de filmes à margem de Hollywood. Desde que (e superando a primazia inicial do cinema francês) o cinema norte-americano, através de um modelo de produção, distribuição e exibição, se tornou hegemónico em quase todo o mundo, as cinematografias de outros países e regiões foram consideradas – e assim designadas – como periféricas, em relação com esse suposto centro, que não só é um centro imaginário como impôs um sistema de representação. A implicação mais evidente dessa hegemonia foi sublinhada por Guy Hennebelle no texto seminal Os Cinemas Nacionais Contra Hollywood (1978), ao citar Glauber Rocha e Jean-Luc Godard quando estes denunciam como, através dos filmes, se impôs uma padronização da sociedade que assenta num modelo norte-americano e que distorce a realidade e a diversidade mundial. Essa constatação gerou um espaço de resistência identitária, que se aplica não apenas à produção dos filmes, mas inclui a reflexão sobre o imaginário por eles proposto.

Em alternativa ao uso da expressão cinema periférico – ou da sua declinação no plural –, o cinema produzido fora de Hollywood tem sido perspetivado usando a categoria cinema do mundo (world cinema), que Lúcia Nagib tem pensado a partir de considerações sobre o realismo cinematográfico, propondo alternativamente a designação cinema realista, sobretudo no recém-publicado Realist cinema as world cinema (2020).

Na linha de pensamento sobre um cinema do mundo contraposto ao cinema de Hollywood, inclui-se a reflexão sobre os cinemas nacionais, sobretudo para enquadrar e analisar a intensificação da produção europeia, do Médio Oriente, de parte da Ásia e América Latina no final do século XX, importando aqui realçar o contributo de Jean-Michel Frodon (1998) para pensar como as nações se projetaram (ou não) através das suas cinematografias. Porém, este paradigma é de alcance limitado para considerar quer a diversidade do cinema feito à margem de Hollywood quer os filmes feitos como coprodução de vários países.

Refira-se ainda o conceito accented cinema, proposto por Hamid Nacify para enquadrar o cinema feito por indivíduos e grupos com experiências e práticas culturais não ocidentais, e a sua fecundidade para pensar representações filmadas alternativas. A arqueologia do surgimento deste conceito de cinema periférico remete inevitavelmente para a definição de terceiro cinema, proposta pelos realizadores argentinos Octavio Getino e Fernando Solanas, e inclui práticas integradas que inclui a estética da fome (Glauber Rocha, 1965) e outras de cinema de urgência.

Promovendo uma reflexão sobre o lugar do cinema nos sistemas ecossocioculturais contemporâneos, dando especial atenção ao cinema não hegemónico, feito em diversas periferias (geopolíticas, mas também socioeconómicas, estéticas e disciplinares) – periferias aqui consideradas a partir do modelo centro-periferia pensado pelo economista Samir Amin (1974) –, o n.º 3 anual da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas, subordinado ao tema “Cinema(s) Periférico(s)”, convida à publicação em três das suas secções: Ensaios; Artigos; e Sugestões de Leitura/Recensões.

Acolher-se-ão com interesse propostas de ensaios escritos e de artigos (entre 2500 e 5000 palavras), ensaios visuais (até 5 imagens + texto complementar, entre 500 e 1000 palavras), e recensões críticas (entre 1000/2000 palavras), que, ocupando-se do tema “Cinema(s) Periférico(s)”, abordem (não exclusivamente) tópicos como:

  • Cinema, saber e poder:
    • hegemonias e periferalidades;
    • propaganda e resistência;
    • colonialismo e pós-colonialismo;
  • Cinema e cartografia do mundo:
    • narrativas e imagens de mundos silenciados e invisíveis no cinema de arte, no cinema científico e no cinema jornalístico;
    • representação cinematográfica denotativa e não denotativa (Nelson Goodman): documentarismo, ficção, ensaio e poesia cinematográficos;
    • marketing turístico e exoticização cinematográfica do local e da cidade;
  • Genealogia e reflexão teórico-conceptual: cinema mainstream, cinema periférico, cinema popular, cinema nacional, cinema do mundo, terceiro cinema (Angela Prysthon), estética da fome, cinema/estética de urgência, Cinema realista (Lúcia Nagib) ...
  • Trânsitos e transferências cinematográficos:
    • circulação e indústria cinematográfica: a produção do ‘local’, do ‘global’ e do ‘translocal’
    • tradução intersemiótica: cinema ←→ outras artes;
  • Lugares, edifícios e dispositivos cinematográficos:
    • arquitetura e urbanismo;
    • tecnologia e novos media;
  • Periferias do fenómeno cinematográfico:
    • cinematografias e cineastas esquecidos;
    • o cinema para além do filme, da ação, dos atores e do realizador: cruzamento interartes, encontro transdisciplinar e processo de criação coletiva.

As propostas para publicação serão avaliadas de acordo com os critérios internacionais de dupla avaliação cega por pares, e serão aceites trabalhos em Português e em Inglês, com manifesta qualidade, que contribuam  para a reflexão proposta  com o tema de capa do n.º3 da TRANSLOCAL e que respeitem as normas de edição adotadas pela revista e aqui disponibilizadas.  Os textos redigidos em Português poderão seguir ou não a norma do Acordo Ortográfico de 1990, devendo o autor declarar a opção seguida, em nota.

Por se tratar de uma revista publicada no Funchal, acolher-se-ão com interesse propostas que considerem a produção de cinema na e sobre a Madeira, e relativa à realização cinematográfica por autores madeirenses.

As propostas (texto completo e eventuais imagens) deverão ser enviadas até 15 de Fevereiro de 2021, para a coordenação da revista (translocal.revista@mail.uma.pt), incluindo também os seguintes elementos:

- um resumo da proposta de texto submetida, em português e em inglês (até 200 palavras);

- nome do(s) autor(es) e uma breve nota curricular (até 100 palavras).

Até 30 de Março de 2021, a coordenação da revista informará os autores das propostas que forem aceites e, após a conclusão do processo de revisões finais e paginação, a revista será publicada ainda no primeiro semestre de 2021.

+ info.: translocal.cm-funchal.pt/wp-content/uploads/2020/12/CFP-Translocal-3-CinemaS-PerifericoS_2020.pdf

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