Quinta-feira, 26 de Novembro de 2020
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Barthes hoje: chamada para o nº 30 da revista Criação e Crítica

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Chamada para artigos, Ciências Humanas, Literatura

Barthes hoje

Chamada para o nº 30 da Revista Criação & Crítica

Roland Barthes manteve uma relação ambígua com seus contemporâneos. Por um lado, era visto como um autor moderno, que acompanhava ou até mesmo antecipava as tendências de seu tempo. Por outro, insistia no valor de obras e discursos considerados fora de moda: “De repente, tornou-se indiferente para mim não ser moderno” (BARTHES, 2002d, p. 676), escreveu em seu diário. Essa atitude paradoxal gerou interessantes discussões: seria Barthes um antimoderno (COMPAGNON, 2012)?

Ao escrever sobre áreas como a política, o teatro, a literatura e as correntes de pensamento de seu tempo, Barthes muitas vezes adotou posições que serviram para redefinir a paisagem intelectual de sua época. Nesse sentido, talvez não seja excessivo qualificá-lo como um autor engajado: Mitologias, seu livro mais político, continua sendo um dos mais importantes hoje. Contudo, a sua atualidade foi posta em questão por seu próprio autor (BARTHES, 2002a, p. 673). Como pensar esse paradoxo? Também podemos perguntar-nos sobre a relevância de suas ideias no contexto latino-americano: apesar da distância, os escritos barthesianos têm tido uma influência inegável nos mais diversos campos de estudo.

Complementar a esse engajamento barthesiano, o movimento de distanciamento na obra foi muitas vezes notado por seus comentadores. Barthes declara seu gosto por Schumann, que considera inatual. Trata-se de um afeto contra a sua própria época: um amor pela Noite (BARTHES, 2002e, p. 725). Nesse sentido, todos os amores seriam noturnos. O amor é um discurso sem apoios, marginalizado pelo seu tempo: ele isola (BARTHES, 2002c, p. 27). Daí uma reflexão sobre a escrita do sujeito que se conquista contra o burburinho social. Ao lado desse amor marginalizado, há também uma escrita da sexualidade e do contato (ver, por exemplo, BARTHES, 2002f): não é o seminário barthesiano um jogo erótico? Para ele, o mais importante não é tanto o objeto transmitido, mas o roçar de pele quando ele muda de mãos. (BARTHES, 2002b, p. 507)

 Segundo Claude Coste, uma imagem, empregada por Barthes, pode nos ajudar a pensar a questão: o porco-espinho. Um porco-espinho jamais poderá aproximar-se demais de seus companheiros, sob pena de ser espetado. No entanto, a distância total é um isolamento insuportável; quando chega a noite, ninguém quer estar sozinho (BARTHES, 2002, p. 176). Esse é o sentido de sua atuação nos seminários: a sua relação com os alunos deve ser afetuosa sem ser sufocante, pois é o distanciamento que permite a criação (COSTE, 2008). Vê-se, então, a importância das reflexões de Barthes sobre o ensino: elas não descrevem apenas uma prática particular, mas produzem um pensamento sobre temas como a autoridade do professor, a posição dos alunos e as suas potencialidades criativas. A sua atitude pode ser essencial para refletir sobre a atuação de professores nas mais diversas dimensões, principalmente no que concerne à leitura e à escrita criativa: ela é um meio de interrogar tanto os modos de ensino contemporâneos como nossa relação com o outro.

Assim, não se deve confundir o afastamento barthesiano com a simples alienação, ele também é uma forma de responsabilidade (ZENKINE, 2018). De fato, assistimos ao surgimento de algo que talvez não pudesse ser compreendido no século passado: o engajamento alienante. Hoje, é exigido, de todos, uma espécie de envolvimento total. Fala-se em costumer engagement: devemos oferecer-nos ao mercado, aceitar e defender fervorosamente discursos políticos e dirigir continuamente nossa atenção para as diversas redes sociais que nos solicitam imperiosamente. Podemos, desse modo, perguntar-nos de que maneira essa alternância entre proximidade e afastamento, que implica no estabelecimento de uma relação dinâmica de alteridade, pode ajudar-nos a refletir sobre os discursos e atitudes de nossa época.

Por isso, a revista Criação e crítica acolherá propostas que buscam pensar a atualidade a partir de ideias, textos e atitudes barthesianas e os impactos, reverberações e ressonâncias com relação aos seguintes temas:

  • Barthes e os discursos fascistas
  • A retórica e a política
  • Mitologias hoje
  • Relação com a alteridade e com o estrangeiro
  • Desejo, prazer, sexo e sexualidade; o amor
  • Biografemas e a escrita do isolamento, museu pessoal
  • Barthes na sala de aula
  • Leituras, desleituras e desdobramentos da obra de Barthes por seus alunos
  • Barthes e a escrita criativa
  • Barthes e a leitura
  • A presença de Barthes na crítica latino-americana 
  • O impacto de Barthes na criação de escritores latino-americanos

 

As contribuições devem ser enviadas através do site, de acordo com as normas da revista, até o dia 15 de abril de 2021.

A revista aceita artigos em português, francês, espanhol e inglês.

 

Referências

BARTHES, Roland. Comment vivre ensemble; simulations romanesques de quelques espaces quotidiens. Paris: Seuil / IMEC, 2002. Ed. Kindle.

BARTHES, Roland. Mythologies. In: Œuvres complètes, t. I. Paris: Seuil, 2002a, p. 671-870.

BARTHES, Roland. Au séminaire. In: Œuvres complètes, t. IV. Paris: Seuil, 2002b, p. 502-511. 

BARTHES, Roland. Fragments d’un discours amoureux. In: Œuvres complètes, t. V. Paris: Seuil, 2002c, p. 25-296.

BARTHES, Roland. Délibération. In: Œuvres complètes, t. V. Paris: Seuil, 2002d, p. 668-681.

BARTHES, Roland. Aimer Schumann. In: Œuvres complètes, t. V. Paris: Seuil, 2002e, p. 721-723.

BARTHES, Roland. Incidents. In: Œuvres complètes, t. V. Paris: Seuil, 2002f, p. 955-976.

COMPAGNON, Antoine. Os antimodernos: de Joseph de Maistre à Roland Barthes. Belo Horizonte: UFMG, 2012.

COSTE, Claude. Roland Barthes, du séminaire au cours magistral. Histoire de l’éducation, n. 120, 2008. Disponível em: . Acesso em: 22 set. 2020.

ZENKINE, Serge. La responsabilité de Roland Barthes. Revue Roland Barthes, n. 4, jul. 6, 2018. Disponível em: . Acesso em: 22 set. 2020.

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