Terça-feira, 23 de Abril de 2024
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Pensar o presente e o futuro da História Indígena

Data de abertura: Data de encerramento: Países: Brasil

Chamada para artigos, Estudos Indígenas, História

Canoa do Tempo ― Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), divulga chamada para o dossiê: Pensar o presente e o futuro da História Indígena.

Existe um amplio debate historiográfico, centralmente no Brasil e, por certo, com uma intensidade menor em outros países de América, sobre à História Indígena. Uma discussão que propõe, centralmente, como podemos apresentar pesquisas sobre aquela questão e, acima de tudo, sim trata-se de uma História Indígena, os Indígenas na História o uma História dos Indígenas. Proposições, todas elas, que discordam tanto desde a sua apresentação dos supostos desde os quais começam as pesquisas assim como pela composição das análises realizadas por cada quem que participa do debate. Sem dúvida nenhuma trata-se de um debate muito rico que ainda fica longe de mostrar uma proposição hegemónica. Principalmente pela prolífica e ativa participação dos intelectuais indígenas que brindam notáveis e críticos aportes sobre a produção de um conhecimento histórico-antropológico sensível e significativo sobre o seu passado-presente e sobre os agentes que formam parte de dito processo.

Intervenções que obrigam os historiadores, assim como a outros acadêmicos não indígenas, a reconsiderar sua posição no processo de construção de explicações sobre o passado dos ameríndios. Uma posição que, a priori, podemos definir como de intermediários entre o passado ameríndio, que os indígenas vivenciam como próprio a partir de uma relação dialética com o seu presente, e com o passado que pesquisamos como parte do processo de construção de conhecimentos sobre o período Colonial e Republicano; tempos em que as populações ameríndias tiveram uma participação importante demais.

Pensar a História Indígena como campo disciplinar requer, em primer lugar, considerar que no mundo indígena -o mesmo que não tem que ser reduzido só as realidades ameríndias- a lógica que conecta, explica e gera sentidos aos acontecimentos é distinta, e por momentos oposta, a aquela que se manifesta no Ocidente cristão. Aquela lógica é a que organiza momentos memoráveis da vida social da comunidade, os memos que logo são lembrados por meio de performances variadas como as danças; cantos cerimoniais; cerimónias para mudar os nomes o status da pessoa; narrações orais apresentadas em momentos significativos da vida; etc.; etc. Manifestações de um tempo que podemos avaliar como História. Tempo / Tempos que, a modo de dimensões explicativas tornam possível pensar na construção de memorias individuais e coletivas. As mesmas que se mobilizam nas performances já ditas e que manifestam sentidos de pertença comunal. Comunidades de dimensões locais o articuladas entre sim, e que compõem unidades maiores identificadas como nações, onde aconteceram processos tais como a escravidão indígena; aculturação e mudanças na percepção sobre a relação colonial vivenciada. Problemáticas que, sem dúvida nenhuma, reclamam um diálogo sobre o passado; debate que tem que reunir intelectuais indígenas e pesquisadores não indígenas. Um diálogo que faça possível que diversas proposições permaneçam de perto para assim poder compor propostas que apresentem como é que os saberes nativos são compostos e como é que nós podemos levar os arquivos coloniais, que resguardam informações diversas, para que as comunidades indígenas dispunham delas do melhor modo possível. Notícias onde a lógica comunal ameríndia se faz presente, embora ela esteja reduzida pela lógica colonial que existe, e sobrevive, desde o momento mesmo da conformação do Arquivo como dispositivo de poder.

Partindo dessa definição mínima podemos afirmar que a História Indígena não é um tipo particular de História, mais sim que ela possui uma forma outra de organizar aquilo que é considerado como passado; tempo que tem consequências diretas sobre o presente no qual as comunidades experimentam a suas vivências -tempo que também age sobre o futuro da História como disciplina. Um futuro que pode, e necessita, ser bem mais complexo daquela proposição iniciática que apresenta ao historiador - no sentido amplio da categoria- como intermediário para o resgate do passado ameríndio.

O passado das comunidades ameríndias é perceptível desde os sentidos que ele movimenta, sentidos que foram registrados e consigam ser avaliados hoje, mediante indícios, pela documentação resguarda por diferentes Arquivos. Instituição que permite captar interesses diversos de dispositivos de poder variados, os mesmos que algumas vezes aparecem como contrapostos entre sim mesmos. Afirmação que obriga a questionar, em primeiro termo, que consideramos como Arquivo?, como se compõem os documentos que aqueles resguardam?, e, quais são as limitações dos mesmos para o desenvolvimento da pesquisa histórica?; sobre todo sim o historiador não consegue afrontar o seu rol como intermediário na identificação e conformação daqueles núcleos temáticos que consideramos como importantes. Núcleos memos que têm sido definidos a partir de uma relação com um Arquivo que hoje convidamos a explorar desde uma reconceitualização e descolonização, tanto dele como assim mesmo do ofício do historiador, logo de reconhecer que a História Indígena necessita de uma outra lógica que faça possível pensar proposições que resgatem o multinaturalismo.

Neste processo de busca de novas formas para pensar a História Indígena, devemos de considerar ampliar o nosso horizonte de perguntas ao mesmo tempo que é preciso construir uma metodologia de trabalho que torne possível acessar os sentidos da existência, que ainda moram em diversos documentos; questão necessária para poder alcançar um olhar abrangente sobre aquilo que nós consideramos de passado nativo em sua relação com o momento atual, que impõe fazer tarefas de resgate não só daquele passado. Hoje é imprescindível a divulgação da produção de um conhecimento histórico que por muito tempo permaneceu silenciado, quando não esquecido deliberadamente, pelas lógicas coloniais de uma Modernidade que restringe o que deve de ser considerado como outro. Uma lógica que, pelos menos, coloca pedras no caminho para a circulação e divulgação e diálogo entre os saberes indígenas e os não-indígenas, anulando assim a possibilidade de construir uma História multinatural e verdadeiramente intercultural.

A metodologia de trabalho proposta por nós, e que desejamos inspire o debate, se assenta na necessidade de voltar sobre a aquela documentação resguardada no Arquivo e, a partir dela, compor uma primeira abordagem da mesma focando nossa atenção nos usos diversos da linguagem para, em segundo termo, propor os graus a partir dos quais aqueles documentos podem esclarecer, desde o ponto de vista do nativo, o problema que gerou aquele registro e sobre o qual o historiador, da nossa atualidade, coloca a sua atenção. Um historiador que tenta estabelecer um diálogo com um passado ameríndio que, no caso de aqueles, está presente no mesmo tempo que nós pensamos como presente; deixando do lado, mais de uma vez, o carácter recorrente do Tempo como dimensão normativa do que implica, para os indígenas, ser e estar no Mundo.

Ao mesmo tempo é importante demais considerar, e esclarecer, em que medida é necessário consultar outras fontes, inclusive extemporâneas a aquelas consultadas originalmente, além de ampliar os nossos horizontes historiográficos, para assim poder avançar em uma formulação de uma História Indígena que gere reflexões sobre o passado-presente daqueles partindo daquelas categorias que tornam inteligível o mundo ameríndio e que, ao mesmo tempo, desafiam a lógica do Ocidente.

Prazo para submissão de artigos: 31 de março de 2024.

As regras de envio podem ser encontradas no link.

Para mais informações ou esclarecimentos, entre em contato pelo e-mail: canoadotempo@ufam.edu.br

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