Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
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Chamada para o n. 72 da Organon (UFRGS) - Os múltiplos agenciamentos da experiência literária

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: Brasil

Chamada para artigos, Letras, Literatura

Organon
Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Instituto de Letras

Chamada para o n. 72 - Os múltiplos agenciamentos da experiência literária

Pensar a existência além do sujeito, a partir da multiplicidade das formas de vida no plano da imanência. Essa tarefa, proposta por filósofos (DELEUZE e GUATTARI 1995; LUDUEÑA ROMANDINI 2016; CATREN 2017) e antropólogos (VIVEIROS DE CASTRO 2015; GELL 2018), lança aos teóricos e críticos literários o desafio de se pensar a escrita e a leitura sob outras bases ontológicas. Exige-se, doravante, um deslocamento perspectivístico: o sujeito, outrora entronizado como o ponto de convergência da experiência literária, dá lugar a um sem-número de entidades, objetos e corpos, que desvelam outras possibilidades e aspectos existenciais. Assim, pode-se pensar a literatura como um campo experimental para a encenação da multiplicidade da existência, que torna tanto o fazer literário, quanto sua crítica um exercício de antropologia especulativa (NODARI 2015): implodindo a “metafísica do sujeito” (DERRIDA 2014), os textos literários exercitam essa troca de pontos de vista, expondo o sujeito ao seu desmantelamento na transversalidade do encontro com o Outro. Logo, são as existências mínimas (o que se recolhe para aquém do individuado) ou são as criaturas extra-mundanas (que convocam a um tipo de “xenofilia”) o que se torna matéria de especulação: os mutilados de Samuel Beckett, os seres transcósmicos de H.P. Lovecraft e Ursula Le Guin ou o planeta senciente de Stanislaw Lem, o devir-vegetal de Han Kang, o devir-animal de Olga Tokarczuk e de Yoko Tawada, o tio-onça Iauaretê ou o homem-impredicável Bartleby, a baleia Moby Dick ou a cadela Baleia, todos os animais de Franz Kafka (ou inclusive o seu Odradek), que, por sua vez, evoca os seres imaginários de Jorge Luis Borges, etc. – todas essas figuras possibilitam pensar os agenciamentos literários na construção de uma posição ontológica intermediária entre o “eu-sujeito” e uma linha de fuga por onde pode passar um devir minoritário. O que se exercita na literatura são outras possibilidades do ser, que não se inscrevem no campo social do qual a literatura seria apenas a mimese, mas que, contrariamente, resgatam a potência da vida na sua heterogeneidade. Desse modo, a experiência literária não é a posição de um sujeito, mas um agenciamento coletivo, lugar de passagem de um povo sem nome, um povo por vir (DELEUZE e GUATTARI 2013). À diferença, portanto, de tentativas anteriores de pensar a literatura como um discurso sem sujeito a partir da linguística (HAMBURGUER 1986), o que se vislumbra agora é ver nesta ausência o caminho para uma multiplicação de experiências, conexões parciais e jamais peremptórias, alianças com outros modos de existência (SOURIAU 2009), que remetem àquilo que Anna L. Tsing (2015) e Donna Haraway (2016), cada uma a seu modo, entendem por “viver-com”. Literatura sem sujeito único, sem ponto de vista determinado, pois “Costuma-se imaginar o sujeito como uma variante do 1, mas ele talvez seja, na verdade, uma variante do 0 – isto é, do múltiplo universal” (STERZI 2019).

Convidamos os(as) pesquisadores(as) a contribuírem com reflexões acerca dos agenciamentos literários que favorecem a especulação ontológica sobre os diferentes modos de subjetivação e dessubjetivação, bem como as diferentes existências implicadas na multiplicidade da vida.

Organizadores: Antonio Barros de Brito Junior (UFRGS) e Alexandre Nodari (UFPR) 

Submissões de artigos: de 07 de junho a 12 de julho de 2021

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