Terça-feira, 18 de Maio de 2021
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Chamada da revista Conjuntura Austral para o dossiê: "O Sul global pensado por mulheres" | novo prazo

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Chamada para artigos, Mulheres, Sul Global

Dossiê: O Sul global pensado por mulheres

Em 2020, a revista Conjuntura Austral completa dez anos de uma trajetória de fomento às reflexões na área das Relações Internacionais engajadas com questões relacionadas ao Sul Global. A revista tem contribuído para a divulgação de dados, argumentos e visões sobre a América Latina, a África e a Ásia, de forma a buscar romper com a hegemonia, na área das Relações Internacionais, de artigos científicos publicados predominantemente em língua inglesa e cuja posição de enunciação e também objeto de estudo estejam estritamente vinculados ao Norte global.

No entanto, a despeito dos esforços, algumas desigualdades ainda precisam ser enfrentadas. Por exemplo, dentre os mais de 300 artigos publicados na Conjuntura, verificamos que 60% deles são de autores homens contra 25% de artigos escritos apenas por mulheres. Certamente, não se trata de uma disparidade exclusiva da revista, visto que os dados ilustram um espaço reconhecidamente restrito ocupado por mulheres nas publicações acadêmicas da área, quer no Brasil ou no mundo. Nesse sentido, podemos citar uma pesquisa recente[1] realizada entre os membros da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), cujo resultado revelou um conjunto de desigualdades de gênero presentes ao longo de toda carreira acadêmica das participantes. Especificamente sobre a dimensão das publicações, o estudo aponta que “66% das mulheres, contra 79% dos homens, possuem mais de três publicados em periódicos indexados no sistema Qualis-Capes do Brasil” (BACCARINI; MINILLO; ALVES,  2019, p. 380-381, tradução nossa). Dentre as razões apontadas na pesquisa para tal assimetria, destacamos as dificuldades derivadas da ordem patriarcal que induz uma sobrecarga de trabalho para as mulheres com relação à chamada “economia do cuidado”, em especial em contextos de maternidade.

Vale pontuar que tais disparidades de gênero conformam uma situação global, como podemos ver na pesquisa realizada com base nos dados disponibilizados pelo projeto “Teaching, Research, and International Policy” (TRIP), cujo resultado aponta para a presença de um gender gap também no campo das citações acadêmicas. Segundo os autores do estudo, os artigos assinados por mulheres são sistematicamente menos citados na área, o que possivelmente se deve a dois fatores relacionados ao sexismo: “(1) as mulheres tendem a se citar menos do que os homens, e (2) os homens (que constituem uma parcela desproporcional dos acadêmicos de RI) tendem a citar mais homens do que mulheres” (MALINIAK;  POWERS; WALTER, 2013, p.889, tradução nossa)[2]. Ou seja, para além das barreiras para entrada na carreira docente, nós mulheres temos também que lidar com o fato de nossas análises e resultados de pesquisa serem menos ouvidos, menos compartilhados, menos reconhecidos. Assimetrias também reforçadas pelas dinâmicas interligadas com raça, classe, origem e pertencimento institucional.

Nesse cenário, vale menção ao baixo grau de engajamento das instituições acadêmicas na criação de políticas de promoção de igualdade de gênero, de modo que os mais variados processos de avaliação docente permanecem incapazes de reconhecer e reparar os contextos de disparidade mencionados. A presente chamada busca combater esse quadro, destacando-se pela ocupação desse espaço editorial que, conforme provam os dados, ainda apresenta baixa isonomia. Assim, ainda que não nos filiemos à defesa de uma perspectiva essencialista quanto a um “tipo específico” de olhar das mulheres, ou mesmo quanto a uma categorização fixa e restrita sobre essa posição identitária, essa chamada reconhece a necessidade de tornarmos o campo de produção e debate científico mais democrático. Isso porque se “a cabeça pensa onde os pés pisam”, como ensina Leonardo Boff, os pés de mulheres que pisam no Sul global pensam-no a partir de vivências particulares e eventualmente distintas das que autores homens o fazem.

Nesse sentido, aceitamos a iniciativa proposta pelos editores da Revista Conjuntura Austral para organização deste dossiê e convidamos mulheres pesquisadoras do Sul global (Ásia, África e América Latina) a enviar contribuições - artigos escritos em português, espanhol ou inglês, para a terceira edição de 2021, a ser publicada em julho. Trata-se de um convite amplo, de escopo internacional, direcionado a todas aquelas que enfrentam em suas pesquisas as implicações do uso do termo Sul global, situando-o teórica e metodologicamente. O objetivo é reunir um conjunto de trabalhos que versem sobre temas do Sul global, a partir de diferentes perspectivas teóricas e de diferentes enfoques temáticos, que colaborem para qualificar a forma como o compreendemos: seja como lugar geográfico, como conceito, como categoria analítica, como símbolo, como escolha metodológica. Como resultado, esperamos reunir um conjunto de artigos escritos exclusivamente por mulheres e que fortaleçam as reflexões sobre o Sul Global desde uma perspectiva plural e crítica. Os artigos poderão ser enviados até 30 de abril 10 de maio de de 2021. As diretrizes e normas de publicação podem ser encontradas no websiste da revista, neste link.

 

Veronica Korber Gonçalves
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

Lara Martim Rodrigues Selis
Universidade Federal de Uberlândia - UFU

 


 [1] BACCARINI, M.; MINILLO, X.; ALVES, E. Gender Issues in the Ivory Tower of Brazilian IR. Contexto Internacional, v.41, n.2, p. 380-381, 2019.

[2] MALINIAK, D.; POWERS, R.; WALTER, B. The Gender Citation Gap in International Relations. International Organization, v.67, n.4, p.889-922, 2013.

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