Terça-feira, 23 de Abril de 2024
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Workshop de História das Ideias Linguísticas: Oralidade e escrita na produção do saber linguístico

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: Brasil, Geórgia

Chamada para trabalhos, Linguística, Workshops

Encontra-se aberto o período de submissão de resumos para um workshop de História das Ideias Linguísticas proposto no âmbito do XVI ICHoLS - Conferência de História das Ciências da Linguagem, que será realizada em Tbilisi (Georgia), de 26 a 30 de agosto de 2024.

O tema do workshop é "Oralidade e escrita na produção do saber linguístico", conforme resumo (em inglês, francês, português e espanhol) que vocês encontram em anexo e na página do evento (e também, em português, no final desta mensagem): ICHoLS
 
O prazo para a submissão de resumos é 1 de março de 2024.
 
Proponentes:
 
Ana Cláudia Fernandes Ferreira – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Carolina Rodríguez-Alcalá – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
José Edicarlos de Aquino – Universidade Federal de Tocantins (UFT)
 
 
Oralidade e escrita na produção do saber linguístico
 
A escrita representa um limiar na história das ideias linguísticas, enquanto base sobre a qual se apoia a produção do saber científico, como sustenta Sylvain Auroux (1992), mas seu estatuto e sua relação com a oralidade não são os mesmos nas diferentes tradições linguísticas ao longo da história e em diferentes contextos sociais.
 
A gramática na Antiguidade greco-latina foi um espaço de reflexão sobre a escrita, como sugere a etimologia grammatike-gramma, “ciência das letras” (caracteres do alfabeto) ou “do conjunto de letras” (textos). O fato se explica pelo estatuto da escrita na cultura clássica: o primado dado a ela informou todo seu pensamento sobre a língua (Desbordes, 1990). Já as gramáticas dos vernáculos europeus no Renascimento, embora surgidas nessa mesma tradição filológica, extrapolaram o interesse pela língua escrita, na medida em que foram instrumentos para a fabricação de uma língua comum para as nações europeias emergentes (Auroux e Mazière, 2006). Outras tradições gramaticais caracterizaram-se pelo primado da oralidade, seja pela sua valorização como canal de comunicação com a divindade, o que colocou o problema do som no centro da reflexão linguística, como foi o caso das antigas gramáticas de sânscrito na Índia, seja pela necessidade de comunicação oral com os locutores da língua, como na exogramatização das línguas ameríndias no contexto da colonização europeia, que esteve orientada pela finalidade de “não errar falando”, para “entender e ser entendidos” e “salvar almas”, como diziam alguns gramáticos. Podemos pensar, ainda, na constituição da linguística moderna, no início do século XX, em que a referência à escrita da reflexão clássica foi substituída pela afirmação de que somente a expressão oral da língua devia ser tomada em consideração (Desbordes, 1990).
 
O objetivo deste workshop é reunir trabalhos que abordem essa equação oralidade/escrita a partir da seguinte questão geral: como o estatuto e as relações entre os termos dessa equação intervêm no saber produzido sobre a linguagem e as línguas e em que medida imprimem uma forma particular aos instrumentos linguísticos elaborados?
 
Serão bem-vindas propostas de comunicação que discutam essa questão comum a partir de diferentes temas, como por exemplo:
  • Ideias sobre a escrita e a oralidade no pensamento gramatical e no pensamento linguístico moderno (teorias, noções e conceitos, representações, hierarquizações, impacto pedagógico, etc.);
  • Desafios da criação, da adaptação e da transferência dos diferentes sistemas de escrita;
  • Questões teóricas e metodológicas envolvidas no tratamento de corpora escritos e/ou orais, relacionadas ao modelo de língua das descrições; à instituição de uma norma escrita distinta da norma oral; aos critérios de seleção e formulação das regras e dos exemplos em gramáticas e dicionários, entre outras;
  • Estatuto e a representação do som e da ortografia na instituição das línguas nacionais e das línguas de colonização;
  • Efeitos de diferentes formas de registro (escrito, audiovisual e outros) da oralidade sobre o funcionamento da própria oralidade e modos pelos quais ela escapa a essa economia escriturística (De Certeau, 1980), se insinuando na língua de outras maneiras;
  • Funcionamento social das tecnologias de escrita em diferentes contextos onde foram introduzidas (por ex., línguas ameríndias gramatizadas que continuam a funcionar como línguas de oralidade);
  • Desafios da gramatização das línguas de sinais das pessoas surdas a partir das categorias greco-latinas, baseadas em uma escrita alfabética que remete à matéria sonora inexistente nessas línguas (p. ex. a organização das entradas dos sinais dos dicionários tendo como referência a ordem alfabética das palavras de línguas com oralidade, como o português no caso dos dicionários da língua brasileira de sinais);
  • Desafios da inteligência artificial no que diz respeito ao problema central do processamento da voz.
 
Algumas referências bibliográficas

Auroux, S. A revolução tecnológica da gramatização. Campinas: Pontes, 1992. (Tradução ao francês: La révolution technologique de la grammatisation, Liège, Mardaga, 1994).

Auroux S.; Mazière F. Introduction : Hyperlangues, modèles de grammatisation, réduction et autonomisation des langues. In: Hyperlangues et fabriques de languesHistoire Épistémologie Langage, tome 28, fascicule 2, 2006. pp. 7-17.

Chavez de Queiroz, W., & Aquino, J. E. de. Glossários das forças de segurança no Brasil: Os instrumentos linguísticos na relação com o direito e o EstadoPorto Das Letras9(2), 80–105, 2023.

De Certeau, M. (1980). L’invention du quotidien. 1. Arts de faire. Nouvelle édition, établie et présentée par Luce Giard. Paris : Éditions Gallimard, 1990 (Impresso na Itália em 2019).

Desbordes, F. Idées romaines sur l’écriture. Presses Universitaires de Lille, 1990. (Tradução: Concepções sobre a escrita na Roma antiga. São Paulo: Ática, 1995.)

Ferreira, A. C. F. Saberes linguísticos cotidianos. In: História das Ideias Linguísticas. Revista Porto das Letras, 6/5, 2020.

Fournier, J.-M. (org.). Histoire des théories du son. Histoire, Épistémologie, Langage, 29/1. 2007.

Gallo, S. Da escrita à escritoralidade: um percurso em direção ao autor online. In: Rodrigues, E.; Santos, G.; Castello Branco, L. (Orgs.). Análise de Discurso no Brasil: pensando o impensado sempreUma homenagem a Eni Orlandi. Campinas: RG, 2011.

Orlandi, E. Metáforas da letra: escrita, grafismo. In: Orlandi, Eni. Cidade dos sentidos. Campinas: Pontes, 2004.

Orlandi, E.; Souza, T. C. A língua imaginária e a língua fluida: dois métodos de trabalho com a linguagem. In : Orlandi, E. (Org.) Política linguística na América Latina. Campinas: Pontes, 1988.

Rodríguez-Alcalá, C. 2014. El funcionamiento social de las tecnologías lingüísticas: Apuntes sobre la escritura en guaraní en la Provincia Jesuítica del Paraguay. In: Penser l’histoire des savoirs linguistiques: Hommage à Sylvain Auroux. Lyon: ENS Éditions.

Rodríguez-Alcalá, C. 2011. Escrita e gramática como tecnologias urbanas: a cidade na história das línguas e das ideias linguísticas. In: Cadernos de Estudos linguísticos. Campinas, 53/2, jul/dez, 2011, 197-217.

Souza, T. C. Línguas de oralidade, ortografismo e materialidade discursiva. In: Élcio Aloisio Fragoso; Juciele Pereira Dias; Carlos Barroso de Oliveira Júnior (org.). Memória e atualidade na Amazônia. Ensino e línguas. Campinas: Pontes, 2023.

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