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Revista Via Atlântica, chamada para publicação

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Literatura, Chamada para artigos, Estudos Luso-Afro-Brasileiros

Via Atlântica - ISSN 2317-8086

Revista de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa
Universidade de São Paulo

Chamada de artigos

período 12/07/2017  a 31/07/2017

Dossiê nº33 - Queerizar o cânone luso-afro-brasileiro

 

Entre 2015 e 2017, três colóquios internacionais denominados «Queering luso-afro-brazilian studies», ocorridos na França, Suécia e Reino Unido, propuseram uma revisão radical dos cânones da Língua Portuguesa com leituras inéditas ou revisões de manifestações culturais canônicas (des) orientadas pela Teoria Queer. Num esforço de divulgação e aprofundamento da proposta, a revista Via Atlântica receberá contribuições para o dossiê de seu nº 33, “Queerizar os cânones luso-afro-brasileiro”, até 31/10/2017.

Segundo a etimologia, a palavra «cânone» deriva da palavra grega kanôn, que significa «caniço» ou «bengala», e por extensão, «norma» ou «regra». Na sua origem, o «cânone» tinha uma conotação religiosa, dado que delimitava a «lista oficial» das Escrituras dignas de serem incorporadas numa coletânea de escritos inspirados por Deus: a Bíblia. Assim, o termo canónico «tanto faz referência à qualidade presumida de um texto incluído quanto ao status que o texto adquire por pertencer a uma coletânea considerada com autoridade. As religiões conferem um caráter sagrado aos seus textos canónicos, dando muitas vezes a entender que, se não foram escritos por um autor divino, foram-no pelo menos por uma autoridade divina.» (POLLOCK, 2006, p. 3). As universidades e o mundo académico secularizaram o termo «cânone» incorporando ao mesmo tempo a dimensão “sagrada” das obras-primas e dos seus criadores, cuja aura perdura. Sendo assim, determinam e consagram o que, numa dada cultura, merece ser lido, visto, ouvido ou, pelo contrário, esquecido ou apagado.

O termo «queer», como se sabe, oriundo da Língua Inglesa, foi incorporado ao vocabulário acadêmico das diversas línguas ocidentais na medida em que a queer theory se disseminou pela Europa e pela América Latina. Com efeito, contrariamente à identidade gay, «a identidade queer não precisa de se basear numa verdade, qualquer que seja, ou numa realidade estável. Como o indica a própria palavra, queer não designa nenhuma espécie natural, nem remete para nenhum objeto determinado; adquire o seu sentido na sua relação com a norma. Queer designa assim tudo o que não condiz com o normal, o dominante, o legítimo. […] Portanto, o queer não delimita uma positividade mas uma posição em relação ao normativo – posição que não é unicamente reservada aos gays e às lésbicas, mas acessível a qualquer pessoa que é ou se sente marginalizado por causa das suas práticas sexuais» (HALPERIN, 2000, p. 75-76). «Queerizar» é verbo, ação, portanto, de relativizar olhares pré-estabelecidos sobre objetos culturais por coloca-los em deriva, desestabilizando-os dos lugares que confortavelmente ocupam na cultura.

Neste volume, pretende-se assim queerizar obras e seus criadores canónicos, ou ainda ressuscitar @s esquecid@s e outr@s minoritári@s, sem «nenhum critério preconcebido, temática explícita ou biografia de autor, preferindo à celebração de uma diferença a insinuação de uma dúvida constante, a erosão insaciável, lúdica e política, das fronteiras convencionais entre homo e hetero.» (CUSSET, 2002, p. 9-10). As práticas queer são o reflexo de uma resistência à homogeneização cultural, uma «resistência mais firme perante os regimes da normalidade» (WARNER, 2013 p. 16), nomeadamente a heteronormatividade, já que «considerar ainda hoje a heterossexualidade como uma evidência comprova a força do pensamento straight» (KATZ, 2001, p. 152.)

O senso comum admite que só existem dois sexos opostos, uma delimitação que surgiu, segundo Eve Sedgwick, nos finais do século XIX e iinício do século XX, momento a partir do qual «foi atribuído a cada pessoa um género (masculino ou feminino) mas também uma sexualidade (homo ou hetero), uma identidade binária com consequências graves, por vezes confusas, inclusive nos níveis aparentemente menos sexuais da vida pessoal» (SEDGWICK, 2008. p. 2.) O dossiê propõe observar como autoras/es, realizadoras/es ou artistas conseguiram, em Língua Portuguesa, abalar as noções de identidade sexual, o binómio homem/mulher, assim como as oposições entre natureza/cultura, sexo/género, hetero/homo.

Ora, segundo a teoria queer, convém instaurar o gender trouble (BUTLER, 2005.) já que o género se constrói «através de diversas tecnologias [...] (o cinema por exemplo) e os discursos institucionais (a teoria por exemplo) que têm o poder de controlar o campo das significações sociais, e logo de produzir, promover e “implementar” representações do género.» (LAURETIS, 2007. p. 75) Por conseguinte, convém separar «a sexualidade do género» que não «é redutível à heterossexualidade hierárquica», mas também descortinar essas “tecnologias do género”, uma construção da qual se poderia dizer «que toda a arte e cultura da elite ocidental são o reflexo» (LAURETIS, 2007, p. 41).

Esse “gender trouble” poderá até ser ultrapassado para ver como as subculturas queer apontam no sentido de uma «desorientação sexual» (BOURCIER, 2011, p. 331), uma «contra sexualidade» (PRECIADO, 2000), que, além de desconstruir o sistema sexo/género, «faz explodir o pensamento binário genital (pénis/vagina)» (SAEZ, 2005, p. 101.).

 

Linhas propostas

  1. Manifestações do “gender trouble”.
  2. Leituras queer de textos literários ou produções artísticas canónicas.
  3. Análise das “tecnologias do género” em textos e produções artísticas.
  4. Novas formas de identidades de género e desconstrução dos papéis de género.
  5. kitsch, o camp, o queer, o melodrama, a “arte bicha e butch”, o excesso, a subversão.
  6. Modos de vida e/ou olhares limítrofes (bordlines).

 

Referências
BOURCIER. Marie-Hélène, Queer zone 3. Paris: Éditions Amsterdam, 2011.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CUSSET, François. Queer critics. Paris: PUF, 2002.
HALPERIN, David. Saint Foucault: towards a gay hagiography. New York: Oxford University Press, 1995.
KATZ, Jonathan Ned. L’Invention de l’hétérosexualité. Paris: EPEL, 2001.
LAURETIS, Teresa de. Théorie queer et cultures populaires. Paris: La Dispute, 2007.
POLLOCK, Griselda. Differencing the canon (1999). London: Routledge, 2006.
PRECIADO, Beatriz. Manifesto contra-sexual. São Paulo: N-1 Edições, 2014.
RICH, Adrienne. La Contrainte à l’hétérosexualité et autres essais. Genève-Lausanne: Mamamélis-Nouvelles Questions Féministes, 2010.
RUBIN, Gayle ; BUTLER, Judith. Marché au sexe. Paris: EPEL, 2001.
SÁEZ, Javier. Théorie queer et psychanalyse. Paris: EPEL, 2005.
SEDGWICK, Eve. Epistemology of the Closet. Los Angeles: University of California Press, 1990.
WARNER, Michael. « Introduction ». in Fear of a queer planet. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993, p. xxvi. apud FLOYD, Kevin, La Réification du désir : vers un marxisme queer. Paris: Éditions Amsterdam, 2013.
WITTIG, Monique. The straight mind and other essays. Boston: Beacon Press, 1992.

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