Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
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Portuguese Literary & Cultural Studies 34 | As Veias Abertas do Pós-colonial: Afro-descendências e Racismos

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: Estados Unidos

Chamada para artigos, Ciências Humanas e Sociais, Estudos Pós-Coloniais

Neste título, As Veias Abertas do Pós-colonial: Afro-descendências e Racismos, é ostensiva a apropriação do livro de Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina, publicado há mais de 40 anos. Embora possa parecer despropositada essa paráfrase, tendo em conta que o seu autor “renegou” o livro, o mesmo não se pode dizer das veias do pós-colonial cujas heranças coloniais têm vindo a prolongar-se e a reproduzir-se ao longo de décadas após a queda dos mais recentes impérios coloniais.

Com efeito, os portadores da herança colonial que hoje vivem nas ex-metrópoles coloniais – quer ex-colonizados quer seus descendentes, a quem vamos chamar afrodescendentes – vivem este momento com as veias abertas, um estado que, note-se, é também partilhado pelos ex-colonizadores e seus descendentes. Porém, o segmento afrodescendente é, nos espaços que habita nas Américas e na Europa particularmente (embora não apenas), bastante fustigado por uma série de bloqueios, que vão desde  endógenos (mesmo que impulsionados por factores exógenos) a bloqueios que (lhes) são impostos por uma sociedade cuja visão identitária da “comunidade imaginada” teima em reproduzir modelos essencialistas que não incentivam uma visão plural, em termos identitários e de paisagem humana, do país que é indubitavelmente feito hoje, no século XXI, de várias pertenças, realidade não exclusiva de qualquer país de imigração mas também de qualquer país que foi potência colonial. E esse não reconhecimento do Outro como o Mesmo, diverso apenas e não diferente, causa tanta perplexidade quando, no caso de Portugal, nosso lugar de fala (embora não seja produtivo falar apenas a partir de lugares da ex-metrópole, mas também de destinos de homens escravizados), esta ex-potência colonial se vangloria da sua herança atlântica. É essa não consciência de uma realidade pós-colonial, também na ex-metrópole (e não apenas no ex-império), que naturaliza a invisibilidade do não branco em instituições da sociedade civil, nos partidos, nas instituições do Estado ou do outro tipo. E essa invisibilidade é reforçada, porque omissa enquanto problema, quando artistas africanos ou afrodescendentes que conseguem romper as barreiras do silêncio e conquistar um espaço na cena social omitem do seu discurso a questão do racismo ou da representatividade – mais preocupados em buscar o “reconhecimento” daqueles que sempre os discrimina(ra)m (Frantz Fanon) do que em buscar uma emancipação e afirmação identitária, individual ou colectiva. É então que a questão da representatividade do segmento afrodescendente em instâncias da “comunidade imaginada”  se cruza com a do racismo como ideologia de deslegitimização que visa a exclusão desse segmento e o circunscreve à problemática da (i)migração.

Pretende-se, neste número da revista Portuguese Literary & Cultural Studies (PLCS), que surjam categorias epistemológicas e temáticas da análise de diferenças raciais e étnicas bem assim como decorrentes da sociabilidade, representações e dinâmicas sociopolíticas e culturais. O que se pretende, também, é que se possa desvelar a discursividade naturalizante da ideologia da subalternidade e a discriminação institucionalizada por várias “crenças” e práticas tácitas (por exemplo, o pressuposto de que a criança africana ou afrodescendente tem mais dificuldade na disciplina de Português). O que se pretende, igualmente, é que se discuta e se compreenda como é que o lugar de pertença se articula com a identidade étnico-racial neste século XXI, tentando, ainda, contribuir para o debate sobre algumas categorizações e conceitos aparentemente estabilizados (populações racializadas, afrodescendente). O que se pretende, ainda, é que se contribua para o amplo debate proposto pela ONU ao declarar uma Década Internacional de Afrodescendentes, 2015-2024 (resolução 68/237), que se propõe alertar para a precariedade desses segmentos, em vários espaços do mundo, em termos de “reconhecimento, justiça e desenvolvimento.” Pretende-se, enfim, encontrar estratégias, discursivas e de acção, que possibilitem que essas veias abertas possam ser “cosidas” para que não sangrem até uma crónica invisibilidade. Neste contexto, propomos os seguintes eixos temáticos:

  • Racismo como herança colonial;
  • Racismos e racialismos;
  • Afrodescendente como categoria colonial;
  • Afrodescendência como lugar da enunciação;
  • Processos de afirmação coletiva: activismos e acções sociais e políticas;
  • Activismos e acções sociais e políticas significativas para a participação na sociedade;
  • A participação social dos afrodescendentes na sociedade do século XXI;
  • Mecanismos de exclusão social e identitária dos afrodescendentes;
  • Afrodescendentes: estilos de vida, sociabilidade, produção cultural e prática urbana;
  • Identidades diaspóricas: entre a herança colonial e a emancipação identitária.

São ainda aceites propostas referentes a outros interesses e abordagens de diversas disciplinas.

A data limite para apresentação de propostas é 1 de março de 2019. São aceites artigos em Inglês ou Português. As propostas devem estar de acordo com as normas da revista, que estão disponíveis em: https://ojs.lib.umassd.edu/index.php/plcs/about/submissions

Contacto e submissão de propostas para Inocência Mata (mata.inocencia@gmail.com) e Iolanda Évora (ioevora@gmail.com).          

Portuguese Literary & Cultural Studies é uma revista avaliada por pares e publicada on-line e em papel pela Tagus Press, no Centro de Estudos e Cultura Portuguesa da Universidade de Massachusetts Dartmouth. 
Mais informações: https://ojs.lib.umassd.edu/index.php/plcs/index.


The title of this issue—The Open Veins of the Postcolonial: Afrodescendants and Racisms—makes obvious reference to Eduardo Galeano’s Open Veins of Latin America, published more than 40 years ago. Although this paraphrase may seem inappropriate, given the fact that the author has “disavowed” the book, the same cannot be said of the veins of the postcolonial, whose colonial heritages have prolonged and reproduced themselves over the course of decades since the fall of the most recent colonial empires.

Indeed, the bearers of the colonial heritage who reside today in former colonial metropoles—those who were colonized as well as their descendants, whom we will call Afrodescendants—live with open veins, a state that is shared by the former colonizers as well as their descendants. However, in the Americas and particularly (though not exclusively) in Europe, the Afrodescendant part of this group is beleaguered by a series of obstacles, both endogenous ones (even when driven by exogenous factors) and those imposed by a society whose vision of the identity of the “imagined community” insists on reproducing essentialist models that fail to incentivize a pluralist vision. This is true in terms of identity and of the human landscape of a country whose population in the twenty-first century is composed of individuals with various belongings, a reality that includes countries of immigration as well as former colonial powers. And this non-recognition of the Other as the Same, diverse but not different, causes such perplexity that, in the case of Portugal, the place from which we speak (though it is not productive to speak only from the site of the former metropole but also from the destinations of enslaved peoples), the former colonial power boasts of its Atlantic heritage. This lack of consciousness of a postcolonial reality in the former metropole (and not just in the former empire) naturalizes the invisibility of the non-white in the institutions of civil society, in political parties, and in other types of institutions. And this invisibility is reinforced, because it is silenced as a problem, when African or Afrodescendant artists, who succeed in breaking the barriers of silence and conquer space in society, omit from their discourse the question of racism or of representation, for they are more concerned with seeking the “recognition” of those who have always discriminated against them (Frantz Fanon) than with seeking emancipation and the affirmation of an individual or collective identity. In this manner, the question of the representation of the Afrodescendant part of the population in instances of the “imagined community” intersects with that of racism as an ideology of delegitimization, which aims for the exclusion of this segment of the population and limits it to the problem of (im)migration.

This issue of Portuguese Literary & Cultural Studies (PLCS) aims for the emergence of epistemological categories and thematic analyses of racial and ethnic differences as well as those arising from sociability, representations, and sociopolitical and cultural dynamics. The issue aims, as well, to unmask the naturalizing discourse of the ideology of subalternity and institutionalized discrimination through various “beliefs” and tacit practices; to discuss and understand how to articulate the place of belonging with ethno-racial identity in the twenty-first century, while also trying to stimulate debate over some categorizations and apparently established concepts; and to contribute to the broad discussion proposed by the United Nations when it declared the International Decade for People of African Descent, 2015-2024 (Resolution 68/237), which attempts to bring attention to the precariousness of these populations in various spaces around the world in terms of “recognition, justice and development.” This issue, finally, aims to locate strategies of both discourse and action that will make it possible for these open veins to be “sutured” so as not to bleed into chronic invisibility. In this context, we encourage authors to submit full-length academic articles (5,500-8,500 words) addressing the following themes:

  • Racism as a colonial heritage
  • Racisms and racialisms
  • Afrodescendant as a colonial category
  • Afrodescendancy as a place of enunciation
  • Processes of collective affirmation: activisms and social and political actions
  • Activisms and significant social and political actions for participation in society
  • Social participation of Afrodescendants in twenty-first-century societies  
  • Mechanisms of social exclusion and identity of Afrodescendants
  • Afrodescendants: lifestyles, sociability, cultural production and urban practice
  • Diasporic identities: between colonial heritage and emancipation of identity

Although articles on these themes are particularly encouraged, we welcome a variety of topics and approaches from a range of disciplines. 

The deadline for submissions is March 1, 2019. We encourage authors to submit articles in English or Portuguese. Submissions must conform to the journal’s guidelines, which are available here: https://ojs.lib.umassd.edu/index.php/plcs/about/submissions

Please direct inquiries and submissions to guest editors Inocência Mata (mata.inocencia@gmail.com) and Iolanda Évora (ioevora@gmail.com).

Portuguese Literary & Cultural Studies is a peer-reviewed journal published by Tagus Press in the Center for Portuguese Studies and Culture at the University of Massachusetts Dartmouth: https://ojs.lib.umassd.edu/index.php/plcs/index.

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