Sexta-feira, 20 de Abril de 2018

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Chamada de artigos da Lusotopie: Judaísmos nas lusotopias contemporâneas

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: França

Chamada para artigos, Ciências Humanas e Sociais, Estudos Judaicos

A revista Lusotopie está com chamada aberta para o seu primeiro número de 2019 com o tema «Judaísmos nas lusotopias contemporâneas». O prazo para apresentação de propostas (em francês, inglês ou português) decorre até ao dia 20 de abril de 2018.

Editores

  • Marta Francisca Topel, Universidade de São Paulo, Brasil
  • Cyril Isnart, UMR 7307 IDEMEC, Aix Marseille Université, CNRS, França

Os autores que desejam propor um artigo devem enviar um resumo de 500 palavras antes do dia 20 de abril de 2018 para lusotopie[at]gmail.com

Se o resumo for selecionado, os artigos completos são esperados para o 15 de Setembro de 2018.

A revista aceita artigos em três línguas: francês, português e inglês.
 


Enquanto ramos de uma religião cada vez mais enraizada em territórios específicos e espalhada pelos vários continentes do mundo (Bordes-Benayoun dir. 2015), certas comunidades judaicas têm, por razões históricas ou políticas, um relacionamento particular com as suas origens geográficas e culturais portuguesas. Nas lusotopias, ou seja os espaços conectados com a história de Portugal, as atividades económicas e a expansão colonial proporcionaram oportunidades favoráveis para as comunidades judaicas, até o longo momento da repressão liderado pela inquisição católica. Ao longo dos séculos, surgiram e desenvolveram-se grupos e individualidades cuja dupla pertença à religião judaica e ao contexto português permitiu estratégias de acomodação religiosa, social e cultural (Yovel 2009). Apesar dos teimosos impedimentos legais e das construções políticas e simbólicas da alteridade dos judeus como um dado natural, criaram-se modelos de vida, estilos rituais, redes de comunicação, vias de mobilidade, engajamentos no destino nacional. Porém, os episódios do passado judaico que evidenciam e determinam formas variadas e complementares das identidades judaicas não se limitam aos do final da Idade Media. Desde os chamados “marranos” (Schwarz 1925; Novinsky 1972, 2001) até experiências as mais contemporâneas (Pignatelli dir. 2017), as mobilidades típicas da fuga à inquisição dos séculos XVI até XVIII (Wachtel 2001), as migrações proporcionadas pelos regimes liberais no virar do século XX (Medina e Barromi 1987/1988, Franco 2004), os deslocamentos fora da área das perseguições nazis (Pimentel 2006, Schaefer 2014) até o turismo de raiz sefardita (Leite 2017) ou as repercussões das recentes leis de nacionalidade espanholas e portuguesas para os descendentes sefarditas, desenham uma geografia dinâmica das lusotopias judaicas. Esses tipos de trajetórias articulam-se aos referentes territoriais e históricos diversos como o Estado de Israel, a terra de Israel bíblica, o território medieval d’Al-Andaluz, os espaços de refúgio mediterrânicos, europeus, americanos ou asiáticos. Simultaneamente, os processos de transnacionalização, globalização e rediasporização do judaísmo, reconfiguraram alguns traços identitários dessas comunidades através da criação de novas fronteiras religiosas intra-grupais e inter-grupais.

Esse número da revista Lusotopie tem como objetivo colocar em perspectiva as epopeias de milhares de cristãos novos fugindo da Inquisição no Mediterrâneo, na Europa do Norte, na Asia e na América Latina; a vitalidade de algumas comunidades que nas últimas décadas têm reivindicado seu passado sefardita-português; as varias configurações e reconfigurações dos rituais e dos sentimentos de pertença desses grupos; a mobilidade forçada durante a primeira parte do século XX provocada pela exterminação dos judeus da Europa; a dispersão de sobreviventes da Shoah na África ou nos dois continentes americanos. Os fenômenos mencionados, de diferentes modos e com intensidades desiguais, compõem um vasto leque de recomposições religiosas, politicas, culturais e familiares de grupos cuja ligação com a península ibérica - e de modo especial com Portugal - está em permantente reconstrução, ao mesmo tempo em que tem Israel na linha de horizonte.

Para dar luz à diversidade dos destinos contemporâneos do judaísmo, esse número da revista Lusotopie propõe a adopção do plural: “judaísmos” e “lusotopias”. O plural permite questionar e evidenciar as características, os lineamentos, os ressurgimentos da identificação de grupos ou indivíduos com a sua “origem” portuguesa distante ou imaginada, incorporada ou instrumental, que ativam as memórias coletivas (principalmente no que diz respeito às múltiplas Terras Mães), os quadros legais, as estruturas políticas, e as regras de convivência religiosa dos contextos em que os mesmos atuam.

A principal questão é saber em que medida as comunidades desenvolvem estratégias singulares em relação ao passado dos países de língua portuguesa, às suas tradições rituais e a sua transmissão religiosa e a seu posicionamento político nos espaços de que fizeram ou fazem parte. Nesse sentido, esperam-se análises sobre comunidades, figuras ou instituições colectivas que poderão discutir a sobreposição entre os lugares de origem ou de destino e os de mobilidade; como a memória se reinventa e organiza o presente, seja na sua materialiade ou no seu aspecto simbólico e de pertencimento; ou ainda qual é a influência do direito e das legislações sobre as práticas de transmissão ou de cancelamento das identificações religiosas. Tratando-se de uma abordagem das situações mais recentes, privilegiam-se contribuições que exploraram os séculos XIX, XX e XIX, nos contextos onde se encontram grupos sefarditas, além do chamado “mundo lusófono”, e a partir das perspectivas complementares da história, da sociologia, da antropologia, do direito, da ciência política, dos estudos judaicos, ou das ciências da religião.

Bordes-Benayoun, C. dir. 2015, Socio-anthropologie des judaïsmes, Paris, Honoré Champion.
Franco, M. 2004, “Diversão balcânica: os israelitas portugueses de Salónica”, Análise social, XXXIX (170) : 119-147.
Pignatelli, M. dir. 2017
, Judeus e Cristãos Novos no Mundo Lusófono, Lisboa, Colibri.
Pimentel, I. 2006,
Judeus em Portugal Durante a II Guerra Mundial, Lisboa, A esfera dos livros.
Lehmann, D. 2014, Messianic Jews and ‘Judaizing’ Christians - notes from Brazil and Israel. http://www.davidlehmann.org/adlehmann/2014/01/22/271/
Leite, N. 2017, Unorthodox Kin. Portuguese Marranos and the Global Search for Belonging, Berkeley, University of California Press.
Medina, J. e Barromi, J. 1987/1988, “O projecto de colonização judaica em Angola”, Clio, 6 : 79-105.
Novinsky, A. 1972, Cristãos novos na Bahia. São Paulo: Perspectiva.
Novinsky, A. 2001, “Os cristãos-novos no Brasil colonial: reflexões sobre a questão do marranismo”,
Tempo, 6-11.
Schaefer, A. 2014,
Portugal e os refugiados judeus provenientes do território alemão, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra.
Schwarz, S. 1925, Os Cristãos Novos em Portugal no século XX, Lisboa.
Wachtel, N. 2001, La foi du souvenir. Labyrinthes marranes, Paris, Seuil.
Yovel, Y. 2009,
The Other Within: The Marranos: Split Identity and Emerging Modernity, Princeton University Press.

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