Domingo, 18 de Novembro de 2018
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«Brasil literário» no exterior – Perspectivas transnacionais (de 1822 aos nossos dias)

Início: Fim: Data de abertura: Data de encerramento: Países: França

Chamada para artigos, Estudos Brasileiros, Literatura

A revista Cahiers de Framespa divulga a chamada de artigos para o seu número 2019/3, subordinado ao tema «Brasil literário» no exterior – Perspectivas transnacionais (de 1822 aos nossos dias).

Dossiê coordenado por

  • Jefferson Agostini Mello (Prof. Associado da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo)

  • Sébastien Rozeaux (Prof. Adjunto de História Contemporânea, Universidade de Toulouse, FRAMESPA)

Ementa

O estudo das circulações culturais transatlânticas entre a América Latina e a Europa já possui relevante fortuna crítica. Inúmeros trabalhos têm permitido estabelecer a dimensão transnacional dos processos de construção nacional no continente, em particular a importância das transferências culturais. No Brasil Império, as elites letradas se encarregaram da construção de um imaginário nacional oficial, em nome de um ideário de civilização que assumiu sua estreita filiação com a Europa. Assim sendo, os estudos recentes dos processos de recepção e adaptação, no Brasil, dos bens culturais e correntes de pensamento vindas da Europa permitiram avançar no entendimento da dimensão transnacional da construção identitária, saindo do impasse da mera imitação de práticas culturais oriundas da Europa.

Este dossiê se propõe a aprofundar a reflexão em torno dessa dimensão conectada da história cultural, interessando-se pela projeção internacional das produções literárias e intelectuais do Brasil. Em 1873, o escritor Machado de Assis constatou que o “Instinto de nacionalidade” prevalecia em termos de criação literária e artística desde a emergência do romantismo no Brasil, nos anos 1830; constatação a partir da qual ele conclamou uma nova exigência de nacionalidade e, consequentemente, de universalidade por parte dos escritores. Entretanto, desde a sua fundação, as “Letras Pátrias”, ou seja as letras brasileiras aspiram tanto à autonomia quanto à consagração internacional, primeiramente a partir da Europa e, ao longo do século XX, a partir também de outros lugares da América, como Argentina ou os Estados Unidos.

O estudo da projeção internacional das obras literárias e intelectuais brasileiras ao longo dos séculos XIX e XX implica também na análise das modalidades proteiformes da recepção e da difusão desse patrimônio no exterior. Apreender a projeção internacional da cultura letrada brasileira supõe se concentrar tanto nos atores da emissão quanto na recepção.

O dossiê buscará valorizar o papel dos agentes (instituições, associações, particulares) da mediação internacional, brasileiros e estrangeiros, no país ou fora dela, e descrever as redes pelas quais essa cultura letrada transita e se transporta, com o apoio de tradutores, publicistas, editores, mecenas, escritores, diplomatas e demais agentes. Muitos deles têm trabalhado para promover as obras constitutivas de um “patrimônio literário” a ser valorizado também no exterior, com finalidades (políticas, económicas, etc.) que ultrapassam as relações de poder no seio da “República mundial das Letras” (Pascale Casanova).

Assim, os questionamentos que estão na origem deste dossiê são de natureza transdisciplinar, no cruzamento da história cultural, da história literária, da sociologia e da antropologia (ver as referências bibliográficas). A complementaridade dessas abordagens permitirá entender melhor o processo de internacionalização desse “Brasil literário 1 ”, sua amplitude e as redefinições do património cultural que isso implica.

A proposta está aberta aos seguintes subtemas:

  1. A interrogação das modalidades de recepção de uma corrente literária em um ou vários países da Europa ou da América (o “indianismo" no século XIX, ou o modernismo brasileiro). De modo complementar, o dossiê poderia incluir uma análise histórico-antropológica da tradução e recepção de uma obra de um autor do século XIX ou de autores consagrados internacionalmente no século XX, como Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector ou Jorge Amado.

  2. A história da imprensa, a fim de se analisar a recepção das letras brasileiras nas grandes revistas literárias na Europa ou na América, sem esquecer a imprensa luso-brasileira, já que estas revistas podem se constituir em espaços importantes para promover a cultura brasileira no exterior.

  3. O estudo da trajectória de mediadores culturais estrangeiros e brasileiros (escritores, por exemplo, como Francisco Adolpho de Varnhagen, Joaquim Nabuco e, mais tarde, Gilberto Freyre ou Jorge Amado), das suas redes internacionais de sociabilidade, com o fim de analisar as condições da recepção crítica das suas obras e da sua reputação internacional, e as eventuais repercussões que esta tem no campo literário/intelectual nacional (Bourdieu).

  4. O papel das instituições culturais (inter)nacionais, uma vez que, a partir de finais do século XIX, uma nova diplomacia cultural cedo mobilizou o livro como um instrumento da sua política. Pensamos no papel dos escritores diplomatas como assessores do Barão de Rio Branco; ou nas novas mediações que as organizações internacionais constituem ao promover um patrimônio cultural no exterior, após a adesão do Brasil ao Instituto de cooperação intelectual da SDN no entre-guerras, e a fundação do Instituto Nacional do Livro em 1937.

  5. Os novos meios e espaços da difusão internacional desse patrimônio no século XX, dado o fato de que o impresso, em geral, e as múltiplas manifestações da cultura letrada têm a sua hegemonia contestada pela aparição de novos meios de comunicação mais populares como a rádio, o cinema e, mais tarde, a televisão e a internet.

1 Em referência a uma das primeiras histórias literárias do Brasil, escrita e publicada em alemão e logo traduzido pelo francês : Ferdinand Wolf, Le Brésil littéraire. Histoire de la littérature brésilienne suivie d’un choix de morceaux tirés des meilleurs auteurs brésiliens, Berlin, A. Ascher & Co., 1863.

Modalidades de submissão

As propostas e os artigos poderão ser escritos em inglês, francês, português ou espanhol.

As propostas, de máximo 500 palavras, acompanhadas por uma breve presentação biobibliográfica, devem ser enviadas até dia 10 de dezembro de 2018, usando estes dois endereços: sebastien.rozeaux@univ-tlse2.fr e jefferson@usp.br

Os artigos seleccionados (durante o mês de Dezembro) deverão estar prontos para o dia 26 de abril de 2019. Deverão conformar-se com as normas da revista, disponíveis no próprio site da revista: https://journals.openedition.org/framespa/3668

O dossiê será publicado durante o outono de 2019.

Referências bibliográficas indicativas

Abreu, Márcia (dir.). 2016. Romances em movimento. A circulação transatlântica dos impressos (1789-1914). Campinas: UNICAMP.
Abreu, Márcia & Ana Cláudia Suriani da Silva (dir.). 2016. The Cultural Revolution of the Nineteenth Century. Theatre, the Book-Trade and Reading in the Transatlantic World. New York/London: I. B. Tauris.
A. Boschetti (dir.), L’Espace culturel transnational, Paris, Nouveau Monde Éditions, 2010.
P. Bourdieu, « Les conditions sociales de la circulation internationale des idées », Actes de la recherche en sciences sociales, vol. 145, déc. 2002.
P. Casanova, La République mondiale des lettres, Paris, Seuil, 2008.
C. Charle, La dérégulation culturelle. Essai d’histoire des cultures en Europe au XIXe siècle, Paris, Puf, 2015.
C. Hauser, T. Loué, J.-Y. Mollier et F. Vallotton (dir.), La diplomatie par le livre. Réseaux et circulation internationale de l'imprimé de 1880 à nos jours, Paris, Nouveau Monde Éditions, 2011, p. 393-409.
J. Agostini Mello, « Égalités et inégalités de la réception de Bernardo Carvalho dans le marché littéraire français », Iberic@l, n° 8, 2015, p.161-172.
S. Rozeaux, « Les fondations fragiles d’un espace littéraire transatlantique. Les lettres brésiliennes dans le Dicionário bibliográfico português d’Inocêncio Francisco da Silva (1858- 1883) », Cultura, vol. 34, 2015, p. 197-221.
G. Sapiro (dir.), Sciences humaines en traduction. Le livre français aux Etats-Unis, au Royaume-Uni et en Argentine, Paris, Institut français/CESSP, 2014.
G. Sorá, Traducir el Brasil. Una antropología de la circulación internacional de las ideas, Buenos Aires, Libros del Zorzal, 2003.
B. Wilfert-Portal, « L’histoire culturelle de l’Europe : un point de vue transnational »,
PROA – Revista de antropologia e arte, n°4, vol 1, p. 123-149.

« Le « Brésil littéraire » vu de l’étranger – perspectives transnationales (de 1822 à nos jours) », Call for papers, Calenda, Published on Wednesday, October 31, 2018, https://calenda.org/497895

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