Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

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Colóquio Internacional "Cordel Brasileiro: Poesia Política?"

Início: Fim: Países: Galiza

Literatura, Tradução, Cultura, Estudos Culturais, Estudos Brasileiros, Política

O Colóquio Internacional "Cordel Brasileiro: Poesia Política?" acontece no dia 27 de abril de 2017 na Faculdade de Filologia e Tradução (FFT), da Universidade de Vigo. O evento é organizado pela Cátedra Internacional José Saramago e pelo projeto "Poesia Atual e Política". A entrada é livre. O colóquio será acompanhado por uma exposição de literatura de cordel na Biblioteca da FFT.

Programa

11h00 | Conferência: A peleja brasileira - Carlos Nogueira (Universidade de Vigo – Cátedra José Saramago)
Resumo: A peleja brasileira é um poema oral essencialmente dialógico em que intervêm duas vozes individuais que se cruzam numa alternância de forças psicológicas, intelectuais e criativas. Mas a peleja é também, muitas vezes, poesia escrita, umas vezes completamente fictiva, outras vezes reconstrução de encontros célebres entre cantadores que ficaram na memória coletiva. Esta poesia escrita, que faz parte da chamada literatura de cordel, é a imagem ou a projeção de uma obra oral, através da qual os poetas aparecem como alguém que tem, como os cantadores cuja voz alegadamente reproduzem ou a quem dão voz, o dom do pensamento e da palavra, a capacidade de usar e recriar a língua e a razão. Comunicação e arte, razão e emoção, a peleja viabiliza a expressão do que o código sociopolítico, muitas vezes, não permite. Como veremos, tudo, desde o poder social e individual, a religião, o género e a masculinidade, a raça e a cor da pele, é objeto de tratamento na peleja de cordel. Privilegiaremos obras de épocas e configurações estilísticas diferentes, porque a peleja é o reflexo da formação e da evolução social, política e civilizacional e do Brasil; reflexo mas também condição dessa formação e dessa evolução, lugar de discussão de problemas morais, sociais e políticos de todo o tipo, espaço de perpetuação e transformação de ideias e ideais sobre o ser humano e a nação brasileira (os agentes do poder familiar e político, o lugar da cor da pele e do género na organização e distribuição desse poder).

11h30  | Conferência: Oralidade e memória na literatura de cordel - Gisa Carvalho (Universidade Federal de Minas Gerais)
Resumo: Como lugar de produção de memória, o cordel nos permite pensar sobre formas diversas de produção de conhecimento, e, por possuir uma dimensão performativa, social e política, constitui uma forma de resistência à memória produzida hegemonicamente. O cordel é um destes lugares em que é possível questionar formas de dominação, inclusive formas de dominação simbólica. Seus modos de produção, suas narrativas diferenciadas que são comumente renegadas, desconsideradas como formas de conhecimento legítimo têm produzido historicamente narrativas que permitem compreender realidades a partir de um lugar que normalmente não é contemplado pela historiografia oficial, ou seja, o lugar do ordinário, do cotidiano, dos indivíduos que experienciam os acontecimentos, que têm suas vidas afetadas por eles.

12h00 | Conferência: Narrativas do nordeste brasileiro Leandro Gomes de Barros e Ariano Suassuna - Rafaella Cristina Alves Teotônio (Universidade Federal de Pernambuco)
Resumo: Sendo um dos idealizadores do Movimento Armorial nos anos de 1970 no Brasil, Ariano Suassuna buscou elevar a um patamar erudito a cultura popular nordestina. Desse modo, imprimiu em suas obras uma intensa pesquisa sobre a cultura do nordeste brasileiro que buscava resgatar e ressignificar os laços com a cultura ibérica, a oralidade e as formas populares. Dentre os elementos que influenciaram a obra de Ariano Suassuna, o cordel estabeleceu um contato produtivo com as histórias contadas pelas feiras, praças e a literatura escrita, o teatro burguês e o teatro de mamulengos, assim como outras relações possíveis entre a arte dita popular e a arte erudita. Com o intuito de resgatar as raízes perdidas da cultura popular nordestina, Suassuna criou personagens de forte apelo popular, tendo como inspiração histórias e personagens de autores como o cordelista Leandro Gomes de Barros, a quem o autor buscou no Folheto O enterro do cachorro uma das histórias para compor a peça O auto da compadecida. Ao beber nas fontes da tradição popular do nordeste, a quem Suassuna costumava chamar de Romanceiro, compôs histórias e resgatou temas que estão enraizados na cultura do nordeste brasileiro, trazendo a cultura popular para a cena literária de prestígio, derrubando as fronteiras entre cultura do povo e cultura erudita, ao identificar traços complexos em formas como o cordel. Nesse sentido, a efervescência da obra de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial proporcionou um debate político ao campo da arte brasileira, em contraponto ao que se fazia no eixo Sul-Sudeste do Brasil. Tratava-se de uma revolução na concepção de cultura, elevando as manifestações artísticas das classes mais baixas à visibilidade dos cânones, algo possível de compreender a partir do debate do autor russo Mikhail Bakhtin em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Busca-se, portanto, propor um diálogo entre Leandro Gomes de Barros, poeta e cordelista paraibano, expoente da tradição cordelista, e o autor Ariano Suassuna, identificando as apropriações e os resgates propostos pela obra do autor recifense, em contato com a tradição dos folhetos de cordel.

12:30 | Mesa-redonda: “Toda a poesia é política (Yehuda Amichai, poeta israelita)”. O cordel brasileiro é político? - Participantes: Mônica Heloane (Universidade de Vigo), Gisa Carvalho (Universidade Federal de Minas Gerais) e Rafaella Teotônio (Universidade Federal de Pernambuco).
Moderador: Carlos Nogueira (Universidade de Vigo – Cátedra Internacional José Saramago).

Mais informações na página da Cátedra Internacional José Saramago da Universidade de Vigo.

 

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